Caderno público sobre trabalho: operação criativa, mercado audiovisual, narrativa, IA aplicada, carreira e a disciplina que sustenta tudo isso.

arquivo 2010 — 2026

  • Autenticidade não é sobre quem apertou o botão

    A discussão sobre autoria em conteúdo gerado por IA quase sempre começa errada. Ela começa perguntando quem apertou o botão.

    Essa pergunta é fácil e inútil. Fácil porque tem resposta óbvia. Inútil porque autoria em publicidade nunca dependeu de quem operou o equipamento — o diretor de fotografia opera a câmera, e a autoria do filme não é dele sozinho.

    A pergunta que importa é sobre responsabilidade. Quem responde pelo que aquilo diz.

    Porque uma peça publicitária afirma coisas. Afirma sobre um produto, sobre um público, sobre um jeito de viver. Quando a imagem sai de um modelo treinado em milhões de obras alheias, a pergunta “de onde veio isso” deixa de ser filosófica e vira contratual: quem garante que essa imagem pode ser usada, e quem paga se não puder.

    É aí que o mercado brasileiro está exposto. A maior parte dos contratos de produção audiovisual em vigor no país foi escrita antes de a pergunta existir. Eles falam de cessão de direitos sobre o material produzido, sem definir o que é “produzido” quando parte do material foi gerada.

    Não é um problema de artista. É um problema de jurídico, de compliance e de gestão de risco — e vai chegar na mesa de quem coordena produção antes de chegar na mesa de quem cria.

    Advogado especialista em propriedade intelectual: como o Brasil protege artistas frente à IA.

    Recorte da pesquisa de mestrado em andamento (ESPM), sobre autoria e direitos autorais na criação publicitária com IA generativa.

  • Palco também é mídia

    O Coachella 2026 teve Justin Bieber como headliner, ao lado de Sabrina Carpenter e Karol G. No segundo fim de semana apareceram SZA, Billie Eilish e outros nomes que não estavam no cartaz.

    Repare no detalhe: não estavam no cartaz.

    É aí que o festival deixa de ser evento e vira formato. O cartaz vende o ingresso. A participação não anunciada vende o registro — o vídeo, o print, o corte que roda na semana seguinte para quem não estava lá. São dois produtos diferentes, com dois públicos diferentes, na mesma noite.

    Quem produz evento no Brasil costuma tratar isso como bônus. Aconteceu algo legal, alguém filmou, publicamos. É desperdício. A surpresa é a peça de mídia mais barata que um festival tem, e é a única que não pode ser comprada por um patrocinador concorrente.

    O que muda na prática: você não desenha só a programação. Desenha o momento que vai ser recortado, quem vai estar posicionado para capturá-lo, e o que acontece nos noventa minutos seguintes enquanto aquilo ainda é novo.

    Sem isso, o palco fica caro e a mídia fica pobre.

    Bastidores do NOW: produção de conteúdo em tempo real conectando marcas ao Rock in Rio.

    PITCHFORK. Cobertura do Coachella 2026, programação oficial e participações do segundo fim de semana.

  • Ferramenta não é resultado

    A McKinsey mediu em 2025 uma coisa que quem trabalha já sentia no corpo: a maioria das organizações pesquisadas já usava inteligência artificial em pelo menos uma função. E boa parte delas continuava sem conseguir transformar esse uso em valor sistêmico.

    Traduzindo: quase todo mundo ligou a máquina. Quase ninguém mudou o processo.

    Isso não é um problema de tecnologia. É um problema de operação. A ferramenta entra por uma pessoa, que a usa bem, sozinha, no canto dela. O resto da cadeia continua igual — mesmo briefing, mesma aprovação, mesmo retrabalho, mesma reunião de alinhamento que não alinha nada. O ganho morre no gargalo seguinte.

    Já vi isso acontecer em produtora, em agência e em time de conteúdo. O editor passa a decupar em um terço do tempo. Ótimo. Só que a aprovação continua levando nove dias, e o cliente continua pedindo a versão vertical na sexta às sete. O tempo que a IA devolveu não apareceu em lugar nenhum, porque ele foi devolvido para dentro de um sistema que não estava esperando por ele.

    Ferramenta não é resultado. Resultado é ferramenta encaixada em processo, com alguém responsável pelo encaixe.

    O teste é simples e desconfortável: o que exatamente ficou mais rápido, para quem, e onde esse tempo foi parar? Se você não sabe responder, você não implantou IA. Você comprou uma assinatura.

    Andrea Iorio, sobre inteligência artificial dentro das empresas.

    McKINSEY & COMPANY. The state of AI: How organizations are rewiring to capture value. 2025.

  • Contando dias

    Em 2025, YeckehZaare e Resnick publicaram na npj Science of Learning um estudo sobre um incentivo com nome sem graça: Counting Days.

    Em vez de premiar a quantidade de exercícios feitos, o método premiava a quantidade de dias diferentes em que a pessoa praticou. Não importava fazer muito. Importava fazer em dias separados.

    O resultado vai contra a intuição de qualquer um que já virou noite antes de prova, de entrega ou de apresentação. Volume concentrado parece produtivo porque é visível: você sente o esforço, o cansaço serve de prova. Prática distribuída não tem essa sensação. Trinta minutos numa terça não parecem nada.

    Só que a memória e a habilidade não respondem a esforço percebido. Respondem a repetição espaçada.

    Isso tem consequência direta em produção. Roteiro revisado quatro vezes em quatro dias fica melhor do que roteiro revisado quatro vezes num domingo, porque na quarta leitura você já não é a mesma pessoa que escreveu. Distância no tempo é o que devolve o olho crítico. Sem intervalo, você relê o que quis dizer, não o que está escrito.

    Vale para equipe também. Reunião semanal curta de acompanhamento vale mais que a maratona de alinhamento no fim do mês — e custa menos hora de gente cara sentada na mesma sala.

    A curva de esquecimento de Ebbinghaus.

    YECKEHZAARE; RESNICK. npj Science of Learning, 2025. Estudo sobre o incentivo Counting Days.

  • Três semanas com menos tela

    Um ensaio clínico randomizado publicado na BMC Medicine em 2025 testou uma coisa modesta: reduzir o tempo de smartphone para até duas horas por dia, durante três semanas, em estudantes saudáveis. Não era detox radical. Não era retiro. Era um teto.

    O estudo encontrou melhora em indicadores de bem-estar e de estresse.

    O que me interessa aqui não é a conclusão, que é previsível. É o desenho. Três semanas. Duas horas. Um número, um prazo, um limite verificável.

    Compare com o que a gente costuma prometer para si mesmo. “Vou usar menos o celular.” “Vou me organizar melhor.” “Vou desligar mais cedo.” Nenhuma dessas frases pode ser cumprida nem descumprida, porque nenhuma delas tem borda. Elas não são compromissos. São humores.

    A diferença entre intenção e experimento é a borda. Um experimento tem duração, tem métrica e tem data para acabar — e é justamente por acabar que ele é possível de começar. Ninguém aguenta “para sempre”. Quase todo mundo aguenta vinte e um dias.

    Se você vai mudar alguma coisa nesta semana, escolha uma e coloque três bordas: o que exatamente, por quanto tempo, e como você vai saber que aconteceu. Sem as três, você não está mudando nada. Está torcendo.

    Tempo de tela: como o celular afeta foco e atenção.

    BMC Medicine, 2025. Ensaio clínico randomizado sobre redução de tempo de smartphone para até 2 horas por dia durante 3 semanas.

  • Cinema sempre foi decisão vestida de imagem

    No Sundance de 2026 a Adobe levou dois curtas, Wink e MythOS, como estudo de fluxo híbrido. A equipe usou Firefly Boards, Photoshop, Premiere, After Effects e modelos parceiros para moodboard, storyboard e partes da imagem final. Não é manifesto. É documentação de processo.

    E o que a documentação mostra é que a parte difícil não mudou de lugar.

    A IA pode gerar cena bonita. Pode criar atmosfera. Pode sugerir luz, simular mundo, propor enquadramento. Ela não sabe por que aquele mundo precisa existir. Quem sabe é a direção. Ou deveria saber.

    Cinema nunca foi sobre ter imagem. Foi sobre escolher qual imagem, em que ordem, por quanto tempo, e o que fica de fora. Corte é decisão. Duração é decisão. O que você não mostra é decisão — e costuma ser a mais importante.

    O perigo real não é a máquina fazer imagem. É o humano achar que imagem bonita já é cinema. Esse erro não é novo, aliás. Ele existia com câmera cara, com drone, com lente vintage, com correção de cor caprichada. A ferramenta só tornou o erro mais barato e mais rápido de cometer.

    Quando a imagem custa quase nada, o que separa diretor de operador fica exposto. E fica exposto na frente do cliente.

    SET e Unesp, sobre inteligência artificial na produção de conteúdo audiovisual.

    ADOBE. Sundance Film Festival 2026 — curtas Wink e MythOS, estudos de fluxo híbrido entre cinema tradicional e IA generativa.

  • O aquário é o produto

    O BBB 26 estreou em janeiro com três categorias no mesmo confinamento: Pipocas, Camarotes e Veteranos. Anônimo, celebridade e ex-participante disputando a mesma atenção, no mesmo espaço, com as mesmas câmeras.

    Isso é um laboratório de marca pessoal montado por engano — ou de propósito, o que é ainda mais interessante.

    Porque as três categorias entram com ativos completamente diferentes. O Camarote entra com público pronto e com o risco de decepcionar quem já o conhece. O Veterano entra com repertório de jogo e com o cansaço de quem já foi visto. O Pipoca entra sem nada, o que também significa sem passivo.

    E no fim de algumas semanas o placar embaralha tudo. Gente famosa sai cedo. Anônimo vira fenômeno. O ativo inicial não determinou o resultado — determinou só o ponto de partida.

    Quem trabalha com marca deveria olhar para isso com atenção profissional, não com deboche. É a demonstração mais barata que existe de que reconhecimento prévio não é o mesmo que relevância presente. Uma coisa é ser conhecido. Outra é ser assistido.

    A maioria das marcas brasileiras opera com a lógica do Camarote: acha que o histórico compra a atenção de amanhã. Não compra. Compra três dias de paciência.

    Fantástico, bastidores da seleção de participantes do BBB.

    GSHOW. BBB 26 estreia com Pipocas, Camarotes e Veteranos. 12 jan. 2026.

  • A IA entrega opção. Você entrega corte.

    O mercado parou de discutir se a inteligência artificial existe. Em 2026 o Cannes Lions criou o Creative Brand Lion e abriu uma subcategoria de AI Craft. No mesmo ciclo, a Luma AI montou o Dream Brief, uma competição para transformar ideias publicitárias engavetadas em filmes, com um milhão de dólares para quem levasse um Gold Lion. Chegaram quase quatrocentas inscrições. Vinte e uma foram para o festival.

    A conversa mudou de lugar. Não é mais se você usa. É o que sobra quando todo mundo usa.

    Porque a ferramenta virou commodity rápido demais. Ela gera vinte caminhos em dois minutos. Gera trinta. Gera cem, se você tiver paciência de ficar clicando. E é exatamente aí que a coisa desanda: a geração ficou barata e a escolha continuou cara.

    Escolher é o trabalho. Sempre foi. Antes você tinha três opções porque produzir custava, e a escassez fazia o corte por você. Agora a escassez sumiu e o corte voltou para o seu colo. Quem não sabe cortar não vira mais produtivo com IA. Vira mais confuso, em alta resolução.

    Repare no que o Dream Brief realmente premiou. Não foi a ideia gerada pela máquina. Foi a ideia que já existia, morta numa gaveta, que alguém decidiu que merecia existir. O julgamento veio antes. A máquina só executou.

    Então a pergunta profissional deixou de ser “o que eu consigo fazer?”. Virou “o que eu assino?”. São coisas diferentes. A primeira mede capacidade instalada. A segunda mede critério — e critério é a única coisa que a ferramenta não entrega junto.

    Maximídia: especialistas discutem o uso de IA no mercado de publicidade e marketing.

    CANNES LIONS. Cannes Lions introduces the Creative Brand Lion. 12 nov. 2025. · LUMA AI. Luma Submits 21 AI-Generated Finalists to Cannes Lions. 9 abr. 2026.

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