IA aplicada

Inteligência artificial dentro do processo — pesquisa, roteiro, decupagem, versionamento, QA. Ferramenta, não posicionamento.

  • Prompt não é briefing

    Prompt é instrução. Briefing é contexto.

    A confusão entre os dois explica boa parte do material ruim que a inteligência artificial anda produzindo em agência. A pessoa escreve “filme emocional de trinta segundos sobre pertencimento, luz quente, câmera na mão” e acha que fez um briefing. Não fez. Descreveu uma estética.

    Briefing responde outra coisa. Para quem. Contra quem. Em que momento da vida dessa pessoa. Depois de qual frustração. Antes de qual decisão. O que a marca pode dizer sem mentir. O que ela não pode dizer nem que queira. Nada disso cabe em adjetivo de luz.

    A máquina é obediente. Esse é o problema. Ela vai executar exatamente o que você pediu, inclusive quando o que você pediu é raso. E o resultado raso volta bonito, o que atrasa a descoberta de que era raso.

    Antigamente a falta de contexto aparecia cedo. O redator travava, o diretor de arte perguntava, alguém dizia “isso não faz sentido” na reunião de terça. O atrito revelava o buraco. Agora não tem atrito nenhum: você pede, ela entrega, e o buraco só aparece na aprovação do cliente.

    Escreva a tese em uma frase antes de abrir qualquer ferramenta. Se a frase não existe, não é hora de gerar. É hora de perguntar.

    O que é briefing e os sete pontos que não podem faltar nele.

    Baseado na cobertura oficial do Cannes Lions 2026 sobre a subcategoria AI Craft.

  • O acervo de ideias mortas virou ativo

    Toda agência tem. Toda produtora tem. Todo diretor tem. Uma pasta com as ideias que não foram.

    Campanha aprovada e cancelada por corte de verba. Roteiro que o cliente amou e o jurídico matou. Aquele filme que dependia de uma locação impossível, de um elenco caro demais ou de uma janela de tempo que ninguém tinha. Coisa boa, morta por logística.

    Em fevereiro de 2026 a Luma AI colocou um milhão de dólares em cima exatamente disso. O Dream Brief não pediu ideia nova. Pediu ideia não produzida. Quase quatrocentas apareceram em menos de oito semanas.

    Pense no que esse número diz. Não é sobre a Luma. É sobre o tamanho do cemitério.

    O que mudou não foi a criatividade do mercado. Foi o custo de provar uma ideia. Aquilo que antes exigia produção completa para existir minimamente agora existe em versão suficiente para ser julgada. E uma ideia que pode ser julgada volta a ter valor comercial.

    Se você trabalha com audiovisual, isso reordena uma prioridade. Antes o ativo era o portfólio do que foi entregue. Agora o ativo também é o arquivo do que ficou pelo caminho — desde que esteja organizado, nomeado e recuperável. A maioria não está. Está em HD sem etiqueta, em e-mail de 2019, na cabeça de quem já saiu da empresa.

    Acervo desorganizado não é acervo. É entulho com valor sentimental.

    Inteligência artificial na publicidade e propaganda.

    LUMA AI. Luma AI Offers $1 Million For Cannes Lions Gold Winner. 2 fev. 2026.

  • Ferramenta não é resultado

    A McKinsey mediu em 2025 uma coisa que quem trabalha já sentia no corpo: a maioria das organizações pesquisadas já usava inteligência artificial em pelo menos uma função. E boa parte delas continuava sem conseguir transformar esse uso em valor sistêmico.

    Traduzindo: quase todo mundo ligou a máquina. Quase ninguém mudou o processo.

    Isso não é um problema de tecnologia. É um problema de operação. A ferramenta entra por uma pessoa, que a usa bem, sozinha, no canto dela. O resto da cadeia continua igual — mesmo briefing, mesma aprovação, mesmo retrabalho, mesma reunião de alinhamento que não alinha nada. O ganho morre no gargalo seguinte.

    Já vi isso acontecer em produtora, em agência e em time de conteúdo. O editor passa a decupar em um terço do tempo. Ótimo. Só que a aprovação continua levando nove dias, e o cliente continua pedindo a versão vertical na sexta às sete. O tempo que a IA devolveu não apareceu em lugar nenhum, porque ele foi devolvido para dentro de um sistema que não estava esperando por ele.

    Ferramenta não é resultado. Resultado é ferramenta encaixada em processo, com alguém responsável pelo encaixe.

    O teste é simples e desconfortável: o que exatamente ficou mais rápido, para quem, e onde esse tempo foi parar? Se você não sabe responder, você não implantou IA. Você comprou uma assinatura.

    Andrea Iorio, sobre inteligência artificial dentro das empresas.

    McKINSEY & COMPANY. The state of AI: How organizations are rewiring to capture value. 2025.

  • A IA entrega opção. Você entrega corte.

    O mercado parou de discutir se a inteligência artificial existe. Em 2026 o Cannes Lions criou o Creative Brand Lion e abriu uma subcategoria de AI Craft. No mesmo ciclo, a Luma AI montou o Dream Brief, uma competição para transformar ideias publicitárias engavetadas em filmes, com um milhão de dólares para quem levasse um Gold Lion. Chegaram quase quatrocentas inscrições. Vinte e uma foram para o festival.

    A conversa mudou de lugar. Não é mais se você usa. É o que sobra quando todo mundo usa.

    Porque a ferramenta virou commodity rápido demais. Ela gera vinte caminhos em dois minutos. Gera trinta. Gera cem, se você tiver paciência de ficar clicando. E é exatamente aí que a coisa desanda: a geração ficou barata e a escolha continuou cara.

    Escolher é o trabalho. Sempre foi. Antes você tinha três opções porque produzir custava, e a escassez fazia o corte por você. Agora a escassez sumiu e o corte voltou para o seu colo. Quem não sabe cortar não vira mais produtivo com IA. Vira mais confuso, em alta resolução.

    Repare no que o Dream Brief realmente premiou. Não foi a ideia gerada pela máquina. Foi a ideia que já existia, morta numa gaveta, que alguém decidiu que merecia existir. O julgamento veio antes. A máquina só executou.

    Então a pergunta profissional deixou de ser “o que eu consigo fazer?”. Virou “o que eu assino?”. São coisas diferentes. A primeira mede capacidade instalada. A segunda mede critério — e critério é a única coisa que a ferramenta não entrega junto.

    Maximídia: especialistas discutem o uso de IA no mercado de publicidade e marketing.

    CANNES LIONS. Cannes Lions introduces the Creative Brand Lion. 12 nov. 2025. · LUMA AI. Luma Submits 21 AI-Generated Finalists to Cannes Lions. 9 abr. 2026.

  • Vibe Coding + Produto: pare de construir coisa que ninguém pediu

    Vibe Coding + Produto: pare de construir coisa que ninguém pediu

    1. Antes de abrir a inteligência artificial, fecha o ego. A maioria das pessoas não tem uma ideia de negócio. Tem uma vontade fantasiada de aplicativo. A pessoa fala: “vou criar uma plataforma”. Tá. Para quem? Para resolver qual problema? Essa pessoa sofre com isso toda semana?

    Ela já tenta resolver de outro jeito? Ela pagaria, indicaria ou pelo menos sentiria falta se isso existisse? Se a resposta for não, você não tem produto. Tem decoração digital. O primeiro passo é escolher uma pessoa real e escrever três coisas: quem ela é, qual dor ela sente e o que ela já faz hoje para tentar resolver.

    Isso é o começo do que o mercado chama de ICP, ou perfil de cliente ideal. Em português honesto: é saber exatamente para quem você está falando. Depois vem o Job to be Done, que significa “o trabalho que a pessoa quer resolver”. Ninguém compra uma furadeira porque ama furadeira.

    Compra porque quer furar a parede. Ninguém quer mais um aplicativo. A pessoa quer ganhar tempo, vender mais, evitar vergonha, economizar dinheiro, parecer profissional ou parar de sofrer com uma coisa chata que se repete. Clayton Christensen e seus coautores explicam que inovação funciona melhor quando você entende por que as pessoas “contratam” um produto para resolver um problema da vida delas. Produto não nasce da sua empolgação. Produto nasce de uma dor que encontrou forma.

    2. Depois da dor, escreva uma promessa simples. Sem promessa clara, seu produto vira labirinto com botão bonito. Use esta frase: “Meu produto ajuda [pessoa] a resolver [problema] sem [sofrimento principal]”. Exemplo: “Meu produto ajuda professores autônomos a cobrar alunos atrasados sem precisar mandar mensagem constrangedora todo dia”.

    Percebe? Uma criança entende. Um adulto ocupado entende. Um cliente entende. Agora transforme essa promessa na menor versão útil do produto. O nome técnico é MVP, ou produto mínimo viável. Mas vamos traduzir sem palestra de LinkedIn: MVP é o menor produto que já ajuda alguém de verdade.

    Não é produto ruim. É produto sem vaidade. Se o produto é sobre cobrança, ele não precisa nascer com painel lindo, avatar fofo, comunidade, gamificação, plano anual e animação de foguete. Ele precisa cadastrar aluno, valor, data e gerar uma mensagem útil. O resto pode esperar.

    Eric Ries, no método Lean Startup, defende justamente começar pelo problema, criar uma versão mínima, medir o uso e aprender rápido com dados reais. Construir demais antes de validar é só uma forma cara de fugir da realidade.

    3. Agora entra o Vibe Coding: você conversa com a IA para construir, mas continua sendo o adulto da sala. Vibe Coding é usar linguagem normal para pedir que a inteligência artificial crie código, telas e fluxos de produto. A IBM define como um jeito de programar em que a pessoa explica a intenção em linguagem comum e a IA transforma aquilo em código executável.

    Bonito. Poderoso. Perigoso também. Porque se você não sabe o que quer, a IA constrói sua confusão em alta velocidade. Então não peça: “crie um app perfeito”. Isso não é comando. É oração. Peça em blocos pequenos: primeiro a estrutura, depois a tela inicial, depois o cadastro, depois a função principal, depois os erros, depois o visual, depois os testes.

    Um bom pedido para a IA tem cinco partes: objetivo, público, função principal, regras e resultado esperado. Exemplo: “Crie uma versão simples para professores autônomos cobrarem alunos atrasados. O público não entende tecnologia. A função principal é cadastrar aluno, valor e data, e gerar uma mensagem pronta de cobrança.

    Não adicione funções extras. A interface precisa funcionar bem no celular”. A IA acelera execução. Ela não substitui clareza. Se você entrega bagunça para a máquina, ela devolve bagunça com login.

    4. Produto bom faz a pessoa chegar rápido no valor. O resto é enfeite tentando parecer estratégia. Quando alguém entra no seu produto, essa pessoa precisa entender rápido o que fazer e por que aquilo ajuda. Esse momento é o Aha Moment: a hora em que o usuário pensa “entendi, isso serve para mim”.

    No exemplo da cobrança, o caminho certo é curto: entra, cadastra aluno, coloca valor, clica em gerar mensagem e copia o texto para o WhatsApp. Pronto. Valor entregue. Se antes disso você colocou três telas de boas-vindas, cadastro gigante, tutorial chato e painel parecendo cockpit de avião, você não criou produto.

    Criou obstáculo. B. J. Fogg, da Universidade Stanford, propôs um modelo simples de comportamento: uma pessoa age quando tem motivação, consegue fazer aquilo com facilidade e recebe um gatilho no momento certo. Traduzindo para uma criança de 10 anos: se é difícil demais, a pessoa desiste; se não entende o valor, ela não liga; se ninguém lembra ela, ela esquece.

    Então deixe o produto fácil, claro e útil. Não venda tecnologia. Venda alívio. Não diga “sistema automatizado de gestão de cobranças recorrentes”. Diga: “mande cobranças profissionais em 30 segundos”. A pessoa não compra feature. Compra menos dor.

    5. Depois que publicar, pare de se apaixonar pela própria criação e olhe os dados. Produto no ar não é vitória. É só o começo do constrangimento. Agora você vai descobrir se alguém liga. Meça o básico: quantas pessoas chegaram, quantas clicaram, quantas se cadastraram, quantas usaram a função principal e quantas voltaram.

    Se muita gente entra e ninguém clica, sua promessa está ruim. Se muita gente começa e ninguém termina, seu produto está difícil. Se todo mundo usa uma vez e some, talvez você tenha criado curiosidade, não valor. Crescer não é postar igual desesperado. Crescer é melhorar o produto até ele ficar fácil de entender, fácil de usar e fácil de indicar.

    Aí entram as alavancas: botão de compartilhar, convite para amigos, indicação, e-mail útil, lembrete, teste grátis e conteúdo explicando o problema. Mas presta atenção: essas coisas só funcionam se o produto resolver uma dor real. Botão de compartilhar em produto inútil é só panfleto digital.

    A pergunta final é cruel e libertadora: se isso sumisse amanhã, alguém sentiria falta? Se a resposta for não, você ainda está testando. Se a resposta for sim, você começou a construir um negócio. FODAMENTE é isso: parar de brincar de fundador e começar a construir valor que alguém sente na vida real.

    Referências bibliográficas

    Christensen, C. M., Hall, T., Dillon, K., & Duncan, D. S. (2016). Know Your Customers’ “Jobs to Be Done”. Harvard Business Review, September 2016.
    Christensen, C. M., Anthony, S. D., Berstell, G., & Nitterhouse, D. (2007). Finding the Right Job for Your Product. MIT Sloan Management Review, 48(3), 38–47.
    Ries, E.

    (2011). The Lean Startup: How Today’s Entrepreneurs Use Continuous Innovation to Create Radically Successful Businesses. Crown Business.
    Fogg, B. J. (2009). A Behavior Model for Persuasive Design. Proceedings of the 4th International Conference on Persuasive Technology. ACM.
    Norman, D. A. (2013). The Design of Everyday Things.

    Revised and expanded edition. Basic Books.
    Osterwalder, A., Pigneur, Y., Bernarda, G., & Smith, A. (2014). Value Proposition Design: How to Create Products and Services Customers Want. Wiley.
    Moore, G. A. (1991). Crossing the Chasm: Marketing and Selling High-Tech Products to Mainstream Customers. HarperBusiness.
    Rogers, E.

    M. (2003). Diffusion of Innovations. 5th ed. Free Press.
    IBM. (2025). What is Vibe Coding? IBM Think.
    Willison, S. (2025). Not all AI-assisted programming is vibe coding. Simon Willison’s Weblog.

  • Criar seres humanos com IA parece simples até você tentar fazer um que pareça vivo.

    Criar seres humanos com IA parece simples até você tentar fazer um que pareça vivo.

    Criar seres humanos com IA parece simples até você tentar fazer um que pareça vivo.
    Não é só colocar um rosto bonito, uma roupa certa e uma luz cinematográfica.
    É muito mais complexo.
    É olhar para a pele e perceber se ela tem história.
    É ajustar a postura para não parecer pose.
    É encontrar um olhar que não pareça gerado, mas capturado.
    É fazer a imagem ter acidente, imperfeição, intenção e presença.
    Porque o problema da IA não é fazer algo bonito.
    Bonito ela faz em segundos.
    O problema é fazer algo verdadeiro.
    Um ser humano real não é simétrico demais.
    Não está sempre perfeitamente iluminado.
    Não posa como banco de imagem.
    Não sorri como se tivesse sido aprovado por um algoritmo.
    Ele tem peso.
    Tem gesto.
    Tem cansaço.
    Tem vaidade.
    Tem contradição.
    Tem uma vida acontecendo antes e depois daquele frame.
    E é aí que a coisa fica fantástica.
    A IA não elimina o artista.
    Ela expõe o artista.
    Expõe quem só pede imagem.
    E expõe quem sabe construir presença.
    Cada vez mais eu entendo que preciso ser um artista visual que escreve narrativas com imagem.
    Com os olhos treinados por anos de publicidade.
    Com repertório de cinema.
    Com atenção ao craft.
    Com obsessão pelo detalhe que ninguém explica, mas todo mundo sente.
    A peça não pode parecer artificial.
    Ela pode ter sido feita com IA.
    Mas não pode ter alma de IA.
    A imagem precisa convencer antes de impressionar.
    Precisa parecer um instante.
    Não uma demonstração de ferramenta.
    É nesse lugar que eu quero trabalhar:
    entre tecnologia, direção de arte, narrativa, publicidade e verdade visual.
    Porque criar com IA não é apertar botão.
    É dirigir o impossível até ele parecer humano.
    –
    #IAGenerativa
    #ArteComIA
    #NarrativaVisual
    #visualcraft
    #fodamente Ver menos

  • Fazer parte de uma roda de conversação sobre o universo da IA com os alunos da…

    Fazer parte de uma roda de conversação sobre o universo da IA com os alunos da…

    Fazer parte de uma roda de conversação sobre o universo da IA com os alunos da @acruzeirodosul foi menos sobre “futuro” e mais sobre coragem no presente.
    Porque a verdade é simples: muita agência ainda tem medo de IA.
    Usa, testa, brinca, pede milagre no prompt… mas não bota pra jogo de verdade.
    Confia pouco.
    Assume pouco.
    Mas, quando solta o controle, a mágica acontece no shuffle.
    A IA não substitui repertório. Ela revela quem tem.
    Não resolve falta de gosto. Ela escancara.
    Não cria senso crítico por você. Ela amplifica o que você já treinou — ou denuncia o que você negligenciou.
    Depois de 3 anos imerso em IA generativa, uma coisa ficou muito clara pra mim: criar algo não é só dominar ferramenta. É entender quem vai ver. É adaptar linguagem, estética, ritmo, contexto e intenção para o público certo.
    E talvez seja aí que esteja o maior valor da IA hoje: não em fazer mais rápido, mas em fazer melhor, com mais consciência.
    Qual agente traz mais credibilidade?
    Aquele que melhora sua pergunta.
    Aquele que tensiona sua ideia.
    Aquele que aprimora seu senso crítico e estético — em vez de só entregar uma resposta bonitinha.
    No fim, network continua sendo tecnologia de alta performance.
    Conversa boa é dataset vivo.
    Gente interessante é prompt avançado.
    E trocar com quem está testando, errando, criando e colocando na rua ainda é uma das formas mais potentes de evoluir.
    IA não é atalho para quem não pensa.
    É potência para quem sabe olhar.
    #inteligenciaartificial #IA #ᴍᴀʀᴋᴇᴛɪɴɢᴅɪɢɪᴛᴀʟ #tecnología #inovacao
    #Criacao #dicasia Ver menos

    ver o vídeo original ↗

  • Construir linguagem

    Construir linguagem

    Produzir vídeo com IA não é apertar botão. É direção de cinema com um estagiário alienígena: brilhante, ansioso, surdo e com acesso ao futuro.

    Você pede uma grua. Ela faz o movimento contrário. Você pede telejornal. Ela entrega podcast com complexo de Deus. Você pede plateia de auditório. Ela coloca cinco pessoas com o mesmo rosto esperando exame de sangue. Você pede um apresentador proporcional ao cenário. Ela cria um gigante emocional atrás de uma bancada feita para formigas.

    E aí vem o povo do: “É só usar IA.” Claro. E cinema é só apertar REC. O que estamos fazendo aqui não é prompt. É direção.

    A gente está criando O CASO É GRAVE: um telejornal absurdo, brasileiro, meio anos 80/90, com ruído de imagem, plateia desordenada, câmera viva, caos mental e um apresentador tentando manter pose enquanto a própria cabeça desmonta o cenário.

    Não é “gerar videozinho”. É construir linguagem.

    Porque a IA faz imagem bonita fácil. Mas imagem bonita sem intenção é papel de parede caro. A gente não quer papel de parede. A gente quer televisão. Queremos grão. Ruído. Compressão. Luz imperfeita. Gente com escala humana. Plateia com cara diferente. Câmera com peso.

    Microfone certo. Cenário com geografia. Rosto com poro. Olho com cansaço. Humano parecendo humano. A IA ama plástico. A gente quer vida.

    No começo, você escreve: “Faça um telejornal engraçado com plateia.” E apanha. Depois entende que prompt não é frase bonita. Prompt é decupagem. Tem que dizer onde a câmera começa. Para onde ela vai. Quem está em primeiro plano. Quem está no fundo. Qual é a proporção do apresentador.

    Qual é o movimento da grua. O que não pode aparecer. O que não pode virar texto. O que não pode parecer boneco de banco de imagem. Isso não é frescura. É raccord. E raccord é a diferença entre uma cena e um delírio com iluminação boa.

    Comédia piora tudo. Porque não basta parecer real. Tem que bater. O bit precisa ser simples. A piada precisa entrar rápido. Uma criança precisa entender. Um adulto precisa sentir. “Minha cabeça abriu 47 abas. Três trabalham. O resto só opina.” Pronto. A criança entende abas demais.

    O adulto entende ansiedade, boleto, procrastinação, ruído mental e vontade de sumir sem precisar de legenda explicativa.

    Isso é ter uma mente foda. Não é explicar a dor. É transformar a dor numa imagem que ri de você antes que você consiga se defender. E aí o programa ficou claro: a bancada é a tentativa de controle. A redação é a mente produzindo caos.

    A plateia são pensamentos intrusivos. O câmera é a testemunha ocular da vergonha. O apresentador é o ego tentando continuar bonito enquanto a alma procura o manual. Agora existe universo. Existe regra. Existe conflito. Existe comédia. Existe método. A tecnologia não substitui direção. Ela exige mais direção.

    Antes, você precisava saber câmera, narrativa, arte, edição e ritmo. Agora precisa saber tudo isso e ainda traduzir para uma máquina que leva tudo ao pé da letra quando não deveria — e ignora o literal quando você mais precisa. Você escreve “sem texto”. Ela inventa uma palavra em idioma de sonho.

    Você escreve “O CASO É GRAVE”. Ela devolve “O CASIO É GRAVE”, como se o telejornal fosse patrocinado por relógio de camelô. Por isso o fluxo fica profissional: IA gera base. Direção segura intenção. Edição corrige precisão. Humor costura o sentido.

    O futuro não é automático. É dirigido.

    Vai ganhar quem souber dizer: “Comece atrás da plateia. A grua avança. O apresentador começa pequeno. Todo mundo tem a mesma escala. A imagem tem ruído. Não invente texto. Não troque o microfone. Não plastifique o rosto. E quando ele disser ‘roda a vinheta’, corta seco.” Isso é direção.

    Isso é linguagem. Isso é trabalho. No fim, a IA não faz o vídeo. Ela negocia com você. Você pede realismo. Ela oferece plástico. Você pede comédia. Ela oferece sorriso. Você pede Brasil. Ela oferece LED genérico. Você pede alma. Ela pergunta se pode colocar uma luz azul no fundo.

    E você vai lá. Corta. Refaz. Diminui. Simplifica. Aumenta o ruído. Protege o rosto. Protege a proporção. Protege a piada. Protege a história.

    Até aparecer um frame que respira. Aí você entende: não era sobre apertar botão. Era sobre insistir até a máquina parar de parecer máquina por oito segundos.

    O caso é grave.

    Mas agora, pelo menos, está sendo dirigido.

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