Caderno público sobre trabalho: operação criativa, mercado audiovisual, narrativa, IA aplicada, carreira e a disciplina que sustenta tudo isso.

arquivo 2010 — 2026

  • A pergunta antes do prompt

    Estou pesquisando, no mestrado da ESPM, o uso de inteligência artificial generativa na criação de produtos audiovisuais publicitários. Não é um tema confortável, e é por isso que é um bom tema.

    A pergunta que sustenta a pesquisa não é se a ferramenta funciona. Funciona. É outra: o que acontece com autenticidade, autoria e critério quando a produção de imagem deixa de ser o gargalo.

    Publicidade sempre foi um campo discursivo. Ela produz e faz circular valores, representações e ideologias — vendendo produto, vendendo serviço, vendendo causa. Quando a máquina entra nessa cadeia, ela não entra só como equipamento. Entra na etapa em que as escolhas são feitas.

    E aí abre uma bifurcação interessante, que a discussão pública costuma achatar em otimismo ou pânico.

    De um lado, a IA amplia a possibilidade de produção colaborativa. Projeto social, causa pequena, campanha sem verba — coisas que morriam por custo de produção agora conseguem existir em alguma forma. Isso é democratização real, não retórica.

    Do outro, existem questões que ninguém resolveu: autenticidade da criação, dinâmica de produção da campanha, experiência estética na era digital, e os dilemas éticos de autoria e direitos autorais.

    Vou publicar aqui os recortes dessa pesquisa conforme eles ficarem prontos. Não como resumo acadêmico, que ninguém lê, mas como o que interessa a quem trabalha: o que muda na rotina, no contrato e na decisão.

    Debate sobre inteligência artificial na publicidade.

    Pesquisa de mestrado em Comunicação e Consumo, ESPM. Palavras-chave: comunicação e consumo; audiovisual; publicidade; inteligência artificial.

  • O audiovisual está ficando barato. A irrelevância, caríssima.

    Nunca foi tão fácil produzir conteúdo. Uma ideia vira roteiro, a foto ganha movimento, a voz é clonada e o mesmo filme sai em 47 formatos antes do almoço. Parabéns: agora sua marca consegue ser irrelevante em 4K, vertical, horizontal, dublada e com legenda automática.

    Quando produzir tudo se torna possível, produzir deixa de ser diferencial. A pergunta não é mais “o que conseguimos fazer?”. É “o que merece existir?”.

    Uma marca pode publicar cinquenta vídeos por mês, abraçar todas as trends, contratar os creators certos e continuar não representando absolutamente nada na vida de ninguém. Pode estar em todas as plataformas e não ocupar território algum.

    Stuart Hall já demonstrava que imagens não apenas mostram o mundo: elas produzem sentido. Portanto, enquadramento é posicionamento, montagem é hierarquia e casting é representação política. Mesmo quando a equipe diz que está “só fazendo um Reels rapidinho”.

    Cultura não é cenário que se aluga

    Colocar a marca num festival não faz dela parte da cultura, assim como entrar numa academia para tirar uma selfie não deixa ninguém musculoso. O público interpreta, transforma, legitima ou rejeita as narrativas que recebe. Alcance pode ser comprado; pertencimento, não.

    E nenhuma empresa consegue construir externamente uma cultura que sua operação contradiz internamente todos os dias. O público talvez não conheça o organograma, mas o organograma vaza no filme.

    O problema raramente é falta de criatividade

    É falta de estrutura. Cada projeto começa do zero, cada fornecedor precisa reaprender a marca, os aprendizados evaporam e a estratégia chega à produção na forma sofisticadíssima de “precisamos de algo mais humano e disruptivo”.

    O resultado é um filme correto, bonito e completamente intercambiável: troque o logotipo e ele serve para o concorrente. Criatividade sem operação vira acidente. Operação sem criatividade vira fábrica. E inteligência artificial sem direção apenas permite fabricar o genérico mais rápido, mais barato e em escala industrial.

    A IA não elimina a direção. Torna a direção indispensável.

    Quando cem versões podem ser geradas em minutos, o valor não está em produzir a centésima primeira, mas em reconhecer qual fortalece a identidade e matar as outras noventa e nove sem convocar uma reunião de duas horas.

    O futuro não pertence a quem produzir mais. Pertence a quem construir memória, sustentar uma visão de mundo e tiver coragem de não transformar cada possibilidade técnica em mais um conteúdo esquecível.

    Num mundo capaz de gerar tudo, direção é decidir o que não será produzido.

  • Palestrando no SET EXPO

    Palestrando nesse evento incrível: SET EXPO.

  • Autoridade vence perseguição

    Existem duas formas de influenciar uma decisão sobre você: ser lembrado ou ser insistente.

    A segunda funciona um pouco no curto prazo e cobra caro depois. Mensagem repetida, contato em três canais, tentativa de falar com alguém acima de quem está conduzindo. Tudo isso comunica uma coisa só, e não é interesse.

    Autoridade é chata de construir porque é lenta: portfólio organizado, opinião pública sobre um problema real, um caso bem contado, relação que existia antes de você precisar dela.

    A régua que eu uso: quero que descubram que sou bom. Não que percebam o quanto estou tentando ser descoberto.

    Vale para venda, para proposta e para processo seletivo. Especialmente para processo seletivo, onde a diferença entre as duas leituras costuma ser um único e-mail enviado no dia errado.

    Negócios e empreendedorismo: construir antes de pedir.
  • Marca pessoal é o que dizem quando você sai da sala

    Marca pessoal virou sinônimo de se exibir. Não é isso.

    É a frase que sobra quando alguém te descreve para outra pessoa em dez segundos, numa conversa que você não escuta.

    Você não controla essa frase. Influencia: pela consistência do que entrega, pelo tipo de problema que resolve e — principalmente — pelo que recusa.

    Recusar é a parte que quase ninguém faz. Quem aceita tudo não é descrito por nada. Vira “aquele cara que topa”.

    Não é sobre postar mais. É sobre ser previsível no que importa: o que você faz bem, o que você não faz, e o padrão que você não abaixa.

    Marketing pessoal sem virar autopromoção.
  • A produtora do futuro não entrega vídeos. Entrega cultura em movimento.

    Eu aprendi na minha vida profissional que audiovisual não começa quando alguém aperta REC. Começa muito antes. Começa quando uma ideia precisa atravessar criação, atendimento, produção, orçamento, fornecedores, cliente, artista e pós sem perder força no caminho.

    Depois de trabalhar com Nike, Google, Ambev, Bradesco e Heineken, fui entendendo uma coisa: meu desafio quase nunca foi simplesmente “fazer um vídeo”. Foi fazer uma boa ideia sobreviver à operação.

    Porque criatividade sem estrutura vira atraso. Estrutura sem criatividade vira conteúdo que ninguém quer ver. E é justamente no meio dessas duas coisas que uma operação audiovisual precisa funcionar.

    Aprendi isso também ao vivo

    Na Globo, trabalhando com live streaming, não existia “depois a gente corrige”. Aconteceu. Ou você percebeu e ajustou, ou perdeu. Por isso realtime não é postar rápido. Realtime é entender rápido o que merece virar história.

    Em outras operações, o desafio era outro

    Na BETC, precisava fazer cases premium sobre social-first coexistirem com orçamento, fornecedores, edição, motion, áudio, cor, VFX e prazo.

    Na Africa, a gente quis transformar informação espalhada entre áreas em business cases da Ambev com uma narrativa única.

    Na Publicis, tínhamos que organizar vários projetos atravessando ao mesmo tempo direção de criação, RTV, edição e motion. Para entregar todo santo dia — e os dias que não eram santos — comerciais de TV. Aqueles que você vê no intervalo da novela.

    Na Nespresso LATAM, a complexidade estava nos mercados completamente diferentes, squads, localizações, versões e aprovações.

    Processo é espaço criativo

    E aí você percebe que processo não é burocracia. Quanto menos tempo uma equipe perde procurando arquivo, corrigindo versão errada, esperando aprovação ou tentando descobrir quem deveria decidir alguma coisa, mais tempo sobra para criar.

    É aí também que a IA começa a ficar realmente interessante. Não apenas para gerar imagem, mas para pesquisa, transcrição, decupagem, organização, versionamento, busca de conteúdo e QA. IA pode eliminar muito desperdício.

    Mas ainda existe uma parte que depende de gente: entender contexto. Entender comunidade. Entender por que uma reação vale mais do que outra. Entender quando uma marca deveria falar. E, principalmente, quando deveria ficar quieta.

    O ativo mais importante não é a câmera

    Nem o software. Nem a IA. É a capacidade de colocar pessoas, criatividade, dinheiro, tecnologia e cultura funcionando na mesma direção.

    Qualquer operação consegue gerar arquivos. A diferença está em conseguir entrar no caos, reconhecer o que realmente importa e transformar aquilo em uma história que alguém queira ver. É quando produção deixa de ser execução e passa a construir cultura.

  • Storymaker não é quem grava rápido. É quem hackeia o acontecimento.

    Tem profissional com três câmeras que ainda não desbloqueou isso.

    Outro delírio é acreditar que guardar tudo significa preservar tudo. Não significa. Significa acumular arquivo inútil até ninguém encontrar mais nada. A lógica melhor é outra: guardar com profundidade o que importa e resumir o resto.

    Faça isso na cobertura

    Antes do evento, escolha três âncoras: uma pessoa, uma promessa, uma consequência. Acompanhe as três durante o dia. Quem prometeu? Quem duvidou? Quem reagiu? O que mudou no final?

    Sem isso, você não cobriu um evento. Fez turismo corporativo com gimbal.

    Velocidade não é publicar dez segundos depois

    Um vídeo pode chegar ao editor quase instantaneamente e morrer vinte minutos dentro de uma pasta porque ninguém explicou por que ele importa. O problema nem sempre é latência de internet. Muitas vezes é latência de cérebro.

    Cada arquivo relevante deveria chegar com uma função: “isso prova a promessa”, “isso mostra resistência”, “isso muda a narrativa”, “isso precisa sair agora”. O arquivo não pode chegar sozinho. Tem que chegar com contexto. Senão você não montou uma operação — montou um Drive lotado de gente nervosa.

    Não peça para a IA encontrar “o momento mais emocionante”

    Essa pergunta é preguiçosa. Pergunta fraca gera resposta genérica. Peça evidências: quem mudou de expressão? Qual ação provou uma fala? Quem recusou pela manhã e voltou para testar à tarde? Que personagem terminou o evento diferente de como começou?

    A IA consegue encontrar continuidade. Você precisa encontrar significado. Entregar as duas tarefas para a máquina não é inovação. É terceirizar o próprio cérebro e chamar isso de produtividade.

    E tem uma última camada: confiança

    Num mundo onde qualquer imagem pode ser cortada, recriada ou manipulada, não basta publicar rápido. Você precisa conseguir provar de onde aquilo veio. Guarde o arquivo original. Registre horário, autoria, autorização e histórico de edição. Tenha uma versão rápida para as redes e uma versão confiável para o mundo real.

    O storymaker do futuro não será quem carrega mais lente, bateria ou equipamento pendurado no corpo. Será quem consegue encontrar o momento certo, explicar por que ele importa, provar que ele aconteceu e recuperá-lo meses depois.

  • A Vivo transformou um ataque de fúria em demonstração de produto

    Isso foi genial. Que bom que eu vi acontecendo em tempo real. Que incrível ver a televisão brasileira fazendo algo extraordinário assim.

    A Vivo estreou nas ações de conteúdo da segunda fase de “Quem Ama Cuida” com uma inserção que transforma um ataque de fúria em demonstração dos atributos do serviço de internet. A iniciativa, em parceria com a GALERIA.ag e a Globo, conecta a narrativa da novela ao intervalo comercial.

    Na cena, Pilar, interpretada por Isabel Teixeira, destrói diferentes objetos da casa durante um momento de tensão. O modem da Vivo Fibra permanece intacto. Tilde, vivida por Luana Martau, entra em cena para protegê-lo e destacar características do serviço.

    A ação segue durante o break, sem abandonar o cenário nem o clima do folhetim. No filme, objetos atravessam a tela em câmera lenta e se chocam contra a parede, enquanto a câmera revela que o modem resistiu à destruição.

    É exatamente o tipo de coisa que só acontece quando dramaturgia, mídia e operação estão conversando de verdade.

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