Quem paga a conta da atenção

Evento cultural como laboratório de marca, posicionamento e disputa de atenção.

  • Patrocínio que precisa ser explicado já falhou

    Existe um tipo de patrocínio que funciona e um tipo que aparece.

    O que aparece é o logo no telão, a vinheta antes do bloco, o merchandising que a apresentadora lê com aquela entonação de quem está lendo. Todo mundo reconhece o formato, e reconhecer o formato é exatamente o problema: o público já sabe que aquilo é publicidade antes de saber do que se trata.

    O que funciona é o patrocínio que vira mecânica. Quando a marca não interrompe o programa, mas dá ao programa alguma coisa que ele não teria sozinho — uma prova, um prêmio, uma tensão, uma regra nova. Aí o público não assiste ao anúncio. Assiste ao jogo, e a marca está dentro dele.

    A diferença não é de verba. É de momento de entrada. Marca que chega depois do formato pronto só consegue comprar espaço. Marca que chega antes ajuda a desenhar o formato, e sai com algo que a concorrência não consegue replicar comprando mídia.

    Por isso a conversa sobre patrocínio deveria começar no desenvolvimento e não no plano de mídia. Só que no desenvolvimento não tem número para justificar a reunião, e no plano de mídia tem. Então a conversa acontece tarde, sempre.

    Patrocínio que precisa de explicação para fazer sentido no conteúdo já custou caro antes de ir ao ar.

    A estratégia do Itaú no Rock in Rio, com Pedro Smith.

    Comunicação oficial de patrocínio do BBB 26 e cobertura do Gshow, jan. 2026.

  • Palco também é mídia

    O Coachella 2026 teve Justin Bieber como headliner, ao lado de Sabrina Carpenter e Karol G. No segundo fim de semana apareceram SZA, Billie Eilish e outros nomes que não estavam no cartaz.

    Repare no detalhe: não estavam no cartaz.

    É aí que o festival deixa de ser evento e vira formato. O cartaz vende o ingresso. A participação não anunciada vende o registro — o vídeo, o print, o corte que roda na semana seguinte para quem não estava lá. São dois produtos diferentes, com dois públicos diferentes, na mesma noite.

    Quem produz evento no Brasil costuma tratar isso como bônus. Aconteceu algo legal, alguém filmou, publicamos. É desperdício. A surpresa é a peça de mídia mais barata que um festival tem, e é a única que não pode ser comprada por um patrocinador concorrente.

    O que muda na prática: você não desenha só a programação. Desenha o momento que vai ser recortado, quem vai estar posicionado para capturá-lo, e o que acontece nos noventa minutos seguintes enquanto aquilo ainda é novo.

    Sem isso, o palco fica caro e a mídia fica pobre.

    Bastidores do NOW: produção de conteúdo em tempo real conectando marcas ao Rock in Rio.

    PITCHFORK. Cobertura do Coachella 2026, programação oficial e participações do segundo fim de semana.

  • O aquário é o produto

    O BBB 26 estreou em janeiro com três categorias no mesmo confinamento: Pipocas, Camarotes e Veteranos. Anônimo, celebridade e ex-participante disputando a mesma atenção, no mesmo espaço, com as mesmas câmeras.

    Isso é um laboratório de marca pessoal montado por engano — ou de propósito, o que é ainda mais interessante.

    Porque as três categorias entram com ativos completamente diferentes. O Camarote entra com público pronto e com o risco de decepcionar quem já o conhece. O Veterano entra com repertório de jogo e com o cansaço de quem já foi visto. O Pipoca entra sem nada, o que também significa sem passivo.

    E no fim de algumas semanas o placar embaralha tudo. Gente famosa sai cedo. Anônimo vira fenômeno. O ativo inicial não determinou o resultado — determinou só o ponto de partida.

    Quem trabalha com marca deveria olhar para isso com atenção profissional, não com deboche. É a demonstração mais barata que existe de que reconhecimento prévio não é o mesmo que relevância presente. Uma coisa é ser conhecido. Outra é ser assistido.

    A maioria das marcas brasileiras opera com a lógica do Camarote: acha que o histórico compra a atenção de amanhã. Não compra. Compra três dias de paciência.

    Fantástico, bastidores da seleção de participantes do BBB.

    GSHOW. BBB 26 estreia com Pipocas, Camarotes e Veteranos. 12 jan. 2026.

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