Carreira

Posicionamento, liderança, trajetória e as escolhas que constroem senioridade.

  • Por que entrevistar em vez de aplicar questionário

    A pesquisa podia ter sido feita com formulário. Mandar cem perguntas para trezentos profissionais, cruzar respostas, gerar gráfico. Seria mais rápido e teria a aparência de ser mais robusto.

    Escolhi entrevistar. Uma das entrevistas foi com um diretor de criação executiva de uma das maiores agências do país.

    O motivo é simples: em questionário, ninguém admite o que ainda não sabe. Você pergunta “sua agência usa IA generativa no processo criativo?” e recebe sim, com orgulho. Você pergunta “em que etapa?” e recebe uma lista bonita. O que você não recebe é a parte confusa — a hora em que a ferramenta atrapalhou, o projeto em que o cliente vetou, a conversa que ninguém quis ter com o jurídico.

    Entrevista longa capta isso porque tem silêncio, tem retomada, tem “na verdade, deixa eu voltar num negócio”. É nesse retorno que aparece o dado.

    Tem custo: não dá para generalizar. Três entrevistas não representam o mercado, e a pesquisa não finge que representam.

    O que ela oferece é outra coisa — descrição densa de como a decisão acontece por dentro, num momento em que quase toda a literatura disponível ainda é sobre a ferramenta, e quase nenhuma é sobre a sala.

    Entrevista em profundidade como método de pesquisa.

    Nota de método da pesquisa de mestrado (ESPM), etapa de qualificação.

  • Autenticidade não é sobre quem apertou o botão

    A discussão sobre autoria em conteúdo gerado por IA quase sempre começa errada. Ela começa perguntando quem apertou o botão.

    Essa pergunta é fácil e inútil. Fácil porque tem resposta óbvia. Inútil porque autoria em publicidade nunca dependeu de quem operou o equipamento — o diretor de fotografia opera a câmera, e a autoria do filme não é dele sozinho.

    A pergunta que importa é sobre responsabilidade. Quem responde pelo que aquilo diz.

    Porque uma peça publicitária afirma coisas. Afirma sobre um produto, sobre um público, sobre um jeito de viver. Quando a imagem sai de um modelo treinado em milhões de obras alheias, a pergunta “de onde veio isso” deixa de ser filosófica e vira contratual: quem garante que essa imagem pode ser usada, e quem paga se não puder.

    É aí que o mercado brasileiro está exposto. A maior parte dos contratos de produção audiovisual em vigor no país foi escrita antes de a pergunta existir. Eles falam de cessão de direitos sobre o material produzido, sem definir o que é “produzido” quando parte do material foi gerada.

    Não é um problema de artista. É um problema de jurídico, de compliance e de gestão de risco — e vai chegar na mesa de quem coordena produção antes de chegar na mesa de quem cria.

    Advogado especialista em propriedade intelectual: como o Brasil protege artistas frente à IA.

    Recorte da pesquisa de mestrado em andamento (ESPM), sobre autoria e direitos autorais na criação publicitária com IA generativa.

  • A pergunta antes do prompt

    Estou pesquisando, no mestrado da ESPM, o uso de inteligência artificial generativa na criação de produtos audiovisuais publicitários. Não é um tema confortável, e é por isso que é um bom tema.

    A pergunta que sustenta a pesquisa não é se a ferramenta funciona. Funciona. É outra: o que acontece com autenticidade, autoria e critério quando a produção de imagem deixa de ser o gargalo.

    Publicidade sempre foi um campo discursivo. Ela produz e faz circular valores, representações e ideologias — vendendo produto, vendendo serviço, vendendo causa. Quando a máquina entra nessa cadeia, ela não entra só como equipamento. Entra na etapa em que as escolhas são feitas.

    E aí abre uma bifurcação interessante, que a discussão pública costuma achatar em otimismo ou pânico.

    De um lado, a IA amplia a possibilidade de produção colaborativa. Projeto social, causa pequena, campanha sem verba — coisas que morriam por custo de produção agora conseguem existir em alguma forma. Isso é democratização real, não retórica.

    Do outro, existem questões que ninguém resolveu: autenticidade da criação, dinâmica de produção da campanha, experiência estética na era digital, e os dilemas éticos de autoria e direitos autorais.

    Vou publicar aqui os recortes dessa pesquisa conforme eles ficarem prontos. Não como resumo acadêmico, que ninguém lê, mas como o que interessa a quem trabalha: o que muda na rotina, no contrato e na decisão.

    Debate sobre inteligência artificial na publicidade.

    Pesquisa de mestrado em Comunicação e Consumo, ESPM. Palavras-chave: comunicação e consumo; audiovisual; publicidade; inteligência artificial.

  • Palestrando no SET EXPO

    Palestrando nesse evento incrível: SET EXPO.

  • Autoridade vence perseguição

    Existem duas formas de influenciar uma decisão sobre você: ser lembrado ou ser insistente.

    A segunda funciona um pouco no curto prazo e cobra caro depois. Mensagem repetida, contato em três canais, tentativa de falar com alguém acima de quem está conduzindo. Tudo isso comunica uma coisa só, e não é interesse.

    Autoridade é chata de construir porque é lenta: portfólio organizado, opinião pública sobre um problema real, um caso bem contado, relação que existia antes de você precisar dela.

    A régua que eu uso: quero que descubram que sou bom. Não que percebam o quanto estou tentando ser descoberto.

    Vale para venda, para proposta e para processo seletivo. Especialmente para processo seletivo, onde a diferença entre as duas leituras costuma ser um único e-mail enviado no dia errado.

    Negócios e empreendedorismo: construir antes de pedir.
  • Marca pessoal é o que dizem quando você sai da sala

    Marca pessoal virou sinônimo de se exibir. Não é isso.

    É a frase que sobra quando alguém te descreve para outra pessoa em dez segundos, numa conversa que você não escuta.

    Você não controla essa frase. Influencia: pela consistência do que entrega, pelo tipo de problema que resolve e — principalmente — pelo que recusa.

    Recusar é a parte que quase ninguém faz. Quem aceita tudo não é descrito por nada. Vira “aquele cara que topa”.

    Não é sobre postar mais. É sobre ser previsível no que importa: o que você faz bem, o que você não faz, e o padrão que você não abaixa.

    Marketing pessoal sem virar autopromoção.
  • Piso não é preço

    Piso existe para impedir que te paguem menos. Ele não foi feito para dizer quanto você vale.

    Parece óbvio escrito assim. Na prática quase todo profissional de área criativa usa o piso como âncora — e âncora baixa puxa tudo para baixo.

    No ensino privado a convenção coletiva de 2026 traz reajuste de 3,45% a partir de julho, define composição salarial em aulas semanais multiplicadas por 4,5, mais DSR e mais 5% de hora-atividade. Tem até a duração da hora-aula: máximo de cinquenta minutos, com exceção para cursos tecnológicos autorizados.

    Esses números são úteis por um motivo específico: eles te dizem o que a instituição já está obrigada a pagar. Ou seja, te dizem onde a conversa começa — não onde ela termina.

    Quem chega numa negociação sabendo a convenção de cor negocia diferente de quem chega perguntando quanto eles costumam pagar. A primeira pergunta é de quem conhece o setor. A segunda é de quem está pedindo.

    Isso vale além da docência. Em audiovisual não existe convenção com essa clareza, e por isso o efeito é pior: sem piso, cada um inventa o próprio e quase sempre inventa para baixo, com medo de perder o trabalho.

    Levante o número antes da reunião. Não para brigar. Para saber de onde você está falando.

    Guia sobre as seleções do Centro Paula Souza.

    Convenção Coletiva de Trabalho do ensino superior privado, 2026 — reajuste de 3,45% a partir de 01/07/2026; piso por hora-aula na educação básica privada, vigência 01/03/2026 a 28/02/2027.

  • Duas ordens de grandeza

    Uma hora de aula técnica em rede pública paulista paga R$ 22,47. Uma palestra corporativa de uma hora, para quem tem material pronto, fica entre R$ 3 mil e R$ 8 mil.

    São duas ordens de grandeza pelo mesmo conteúdo, dito pela mesma pessoa, no mesmo dia.

    A explicação não é injustiça, é estrutura. Aula é serviço contínuo, precificado por hora, com vínculo, escala e teto definido em lei. Palestra é evento, precificado por entrega, sem vínculo, com risco todo do lado de quem contrata a data.

    Mas a diferença tem uma consequência prática que quase ninguém tira: o material que você prepara para uma aula é o mesmo ativo que sustenta a palestra. Você já fez o trabalho. O que muda é a embalagem e o canal.

    Quem dá aula há anos costuma ter dez palestras dentro do computador e nunca formatou nenhuma. Não por falta de conteúdo — por não ter percebido que aquilo já é um produto, só que precificado no canal errado.

    Não estou dizendo para largar a sala de aula. Estou dizendo para parar de tratar o repertório como se ele só existisse dentro dela.

    O mesmo raciocínio vale para audiovisual: quem edita há dez anos tem um curso pronto e não sabe.

    Quanto ganha um professor no Brasil, e como o salário é composto.

    Comparação entre hora-aula do Centro Paula Souza (LC SP 1.425/2025) e faixa de mercado para palestra corporativa.

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