Caderno público sobre trabalho: operação criativa, mercado audiovisual, narrativa, IA aplicada, carreira e a disciplina que sustenta tudo isso.

arquivo 2010 — 2026

  • A tese em uma frase

    Todo projeto cultural que eu escrevo começa por uma seção chamada a tese, em uma frase.

    Não é enfeite. É teste.

    Se você não consegue dizer o que o filme defende em uma frase, o projeto não está pronto para ser escrito — está pronto para continuar sendo discutido. E projeto que entra em edital sem tese vira sinopse bonita com objetivos genéricos, que é exatamente o material que a banca lê cem vezes por semana.

    A frase precisa afirmar alguma coisa. “Um documentário sobre inteligência artificial” não é tese, é assunto. “O algoritmo organiza o que a gente vê sem nunca saber quem a gente é” é tese: dá para concordar ou discordar dela.

    Escrever essa frase costuma doer, porque ela expõe que o projeto ainda não decidiu o que pensa. Melhor doer no documento do que doer na montagem, dois anos depois, quando o material não converge para lugar nenhum.

    Tem um efeito colateral prático: a tese também resolve o pitch. Você para de explicar o filme por dez minutos e passa a dizer uma frase e esperar a reação.

    Se a pessoa fizer uma pergunta, funcionou. Se ela disser “legal”, não funcionou.

    Como é um modelo de projeto aprovado em lei de incentivo.

    Estrutura de projeto para ProAC ICMS e Rouanet — seção obrigatória de tese e memorial descritivo.

  • Habilidade tradicional continua sendo o piso

    Uma das conclusões da pesquisa é chata e pouco vendável: dominar IA não substitui dominar o ofício. Soma.

    O profissional que se destaca hoje é o que tem as habilidades tradicionais da área e sabe onde a ferramenta encaixa. Não é o que trocou uma coisa pela outra.

    Isso contraria dois discursos ao mesmo tempo, o que costuma ser sinal de que está certo.

    Contraria quem diz que agora não precisa mais aprender fundamento, porque a máquina faz. Não faz. A máquina entrega variação; a escolha entre variações depende de repertório, e repertório só se constrói olhando muita coisa por muito tempo.

    E contraria quem diz que a ferramenta é irrelevante e que só o talento importa. Também não. Quem entrega em um terço do tempo com a mesma qualidade ganha o projeto, e isso não é injustiça — é como o mercado sempre funcionou com toda tecnologia nova.

    A posição defensável é a do meio, e ela dá mais trabalho: continuar aprofundando o ofício enquanto testa a ferramenta.

    Quem só aprofunda vira artesão caro e lento. Quem só testa vira operador rápido e substituível. A conta fecha para quem faz os dois.

    Andrea Iorio, sobre inteligência artificial aplicada ao trabalho.

    Recorte do Estado da Arte (ESPM, 2023).

  • A diretoria define, a liderança traduz

    Três públicos, três necessidades. A diretoria decide e precisa reduzir ruído. A liderança traduz e precisa conduzir conversas difíceis. A operação executa e precisa praticar.

    Quando a empresa manda o mesmo vídeo para os três, dois deles não foram atendidos.

    O erro mais comum é falar com a linha de frente em linguagem de diretoria: visão, ambição, transformação. A pessoa quer saber o que muda no turno dela amanhã.

    O segundo erro mais comum é achar que a liderança intermediária vai traduzir sozinha, sem material, sem ensaio e sem tempo. Ela vira o gargalo real de quase toda mudança — e depois leva a culpa por um problema de desenho.

    Se o projeto tem um único orçamento, eu colocaria nela.

    Comunicação interna: três públicos, três necessidades.
  • O LinkedIn como campo de pesquisa

    Quando eu comecei a pesquisa, quase não havia literatura acadêmica sobre uso de IA generativa em criação publicitária. O fenômeno era novo demais para ter passado por revisão por pares.

    Mas havia debate. Muito debate. Em fóruns profissionais, sobretudo no LinkedIn.

    Isso cria um problema metodológico honesto: post de LinkedIn não é dado científico. Tem viés de autopromoção, tem gente performando domínio de ferramenta, tem quem exagera resultado para conseguir cliente.

    E cria também uma oportunidade. Porque é ali que os profissionais estão equacionando empiricamente, em tempo real, como estão integrando a tecnologia. É registro de prática, não de teoria.

    A saída foi tratar esse material pelo que ele é: corpus de discurso profissional, com todos os vieses declarados. Não serve para provar que a IA funciona. Serve para mapear como a categoria está falando sobre o próprio trabalho — o que já é um dado.

    Vale um alerta para quem lê pesquisa e para quem escreve: quando o campo é novo, a alternativa a fonte imperfeita não é fonte perfeita. É nenhuma fonte.

    Melhor uma leitura cuidadosa de material enviesado, com o viés nomeado, do que esperar cinco anos pela literatura que ainda não existe.

    Debate sobre inteligência artificial na publicidade.

    Recorte do Estado da Arte (ESPM, 2023) sobre adaptação de profissionais de criação à IA.

  • Informação explica, experiência muda

    A maior parte do orçamento de treinamento é gasta em informação. Explicar a política, apresentar o processo, comunicar a mudança.

    Informação resolve quando a pessoa não sabe. Não resolve quando a pessoa sabe e mesmo assim não faz.

    Quase todo problema de cultura em empresa é do segundo tipo. Ninguém precisa ser informado de que assédio é errado, de que a meta existe ou de que o cliente precisa ser ouvido. As pessoas sabem.

    O que muda o segundo tipo é prática, reforço, acompanhamento e devolutiva. É mais lento, é mais chato de vender e é a única coisa que funciona.

    Conclusão de treinamento não é prontidão. São dois indicadores diferentes, e quase toda empresa mede o primeiro e reporta como se fosse o segundo.

    Comunicação interna como estrutura, não como recado.
  • Como o fazedor se adapta

    A pergunta que eu levei para o mestrado em 2023 foi essa: como os fazedores da criação publicitária estão se adaptando à introdução da IA nas práticas de trabalho deles?

    Note o recorte. Não é se a IA é boa. Não é se ela substitui. É como quem faz está se adaptando — no gerúndio, enquanto acontece.

    Escolhi assim porque a outra pergunta já tinha resposta pronta demais dos dois lados. E porque prática de trabalho é onde a transformação aparece antes de virar discurso.

    O termo maker, fazedor, também não foi por acaso. Ele desloca o foco do cargo para o gesto. Numa agência, quem faz nem sempre é quem assina — e é quem faz que descobre primeiro o que a ferramenta muda.

    O que apareceu na pesquisa foi menos dramático e mais interessante do que o debate público sugere: a mudança não estava no talento nem na criatividade. Estava na dinâmica colaborativa. Quem pede o quê, para quem, em que ordem.

    Co-criação sempre foi uma negociação entre pessoas. Quando entra um agente que responde em segundos e não se cansa, a negociação muda de forma — não porque a máquina cria, mas porque ela reorganiza quem espera por quem.

    Inteligência artificial na publicidade e propaganda.

    SAMPAIO, Marcello. Inteligência Artificial e os Impactos na Forma de Co-Criar. Projeto de Estado da Arte, Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo, ESPM, 2023.

  • O que a criança de doze anos vê primeiro

    Na prática com os estudantes, o exercício era simples: olhar um cartaz e dizer o que ele promete.

    Eles acertavam quase sempre. Sem vocabulário técnico, sem saber o que é hierarquia visual, sem nunca ter ouvido a palavra composição.

    Isso não é mérito das crianças. É a natureza da coisa. Cartaz funciona no nível pré-verbal — ele comunica antes de ser analisado, e quem analisa demais está fora do público-alvo.

    O problema aparece na segunda pergunta: por quê? Aí eles precisavam voltar e olhar. E ao voltar, começavam a nomear: essa pessoa está no centro, essa cor é fria, essa letra é pesada, esse rosto está cortado.

    Esse é o pulo. A leitura intuitiva vem de graça; a leitura consciente é o que permite fazer. Quem só tem a primeira consegue julgar o trabalho dos outros e não consegue produzir o próprio.

    Vale para o mercado inteiro. Tem muito profissional experiente que sente que a peça está errada e não consegue dizer por quê — e sem dizer por quê, a nota vira gosto pessoal e a discussão vira briga.

    Ensinar a nomear é ensinar a dirigir.

    https://www.youtube.com/watch?v=Np9KDnFi_sw
    Processo de criação de um pôster de filme.

    Prática Profissional em Artes Visuais (FAVENI, 2025), projeto de intervenção com estudantes do Ensino Fundamental II.

  • A sala devolve o que a reunião esconde

    Numa reunião de trabalho, quando a explicação não funciona, as pessoas fazem cara de que entenderam.

    Elas fazem isso por educação, por hierarquia, por cansaço, por não querer parecer lentas. E o resultado é que você sai da reunião achando que alinhou, e descobre duas semanas depois que cada um entendeu uma coisa.

    Turma de Fundamental II não faz isso.

    Se a explicação foi ruim, aparece em cinco segundos: alguém pergunta a coisa óbvia, alguém começa a conversar, alguém desiste. Você recebe o retorno mais honesto do mundo, sem filtro e sem política.

    É desconfortável e é útil. Depois de algumas aulas, você para de explicar do jeito que faz sentido para você e começa a explicar do jeito que entra.

    A transferência para o mercado é direta. Briefing, direção de elenco, alinhamento de equipe e apresentação de projeto são todos atos de ensino — e todos sofrem do mesmo problema de assumir compreensão que não existe.

    Quem só apresenta para adulto educado nunca descobre que explica mal.

    Conteúdo e prática do ensino de artes nos anos iniciais.

    Registro de prática docente em Artes Visuais, Ensino Fundamental II, 2025.

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