Temporada 2

Setembro a dezembro de 2025. Cartaz, co-criação, projeto cultural e sala de aula.

  • Ementa é promessa pública

    Ementa parece documento burocrático. É contrato.

    Ela diz o que a pessoa vai saber fazer no fim, e por isso é o único lugar onde o curso é obrigado a ser específico. Depois de escrita, ela deixa de ser sua: o aluno pode cobrar.

    É por isso que ementa vaga é tão comum. “Compreender os fundamentos da linguagem audiovisual” não pode ser cobrado por ninguém, porque não define nada. Já “decupar uma cena de dois minutos em plano e contraplano, com justificativa de corte” pode — e é ali que o professor descobre se a aula que ele deu funciona.

    A mesma lógica vale para oficina, palestra e curso corporativo. Quem vende formação e descreve entrega em verbo abstrato está se protegendo de ser avaliado.

    Tem um teste rápido: leia sua ementa e pergunte o que exatamente a pessoa vai conseguir fazer amanhã que não conseguia ontem. Se a resposta for uma sensação, reescreva.

    Isso não deixa o curso mais duro. Deixa ele mais fácil de vender, porque o comprador entende o que está comprando.

    E deixa mais fácil de dar, porque você para de improvisar o destino no meio do caminho.

    Como elaborar um projeto de intervenção pedagógica.

    Ementas e planos de aula desenvolvidos para cursos de audiovisual e artes visuais.

  • É melhor errar aqui

    Simulação é ensaiar a conversa difícil antes de ter a conversa difícil.

    A maior parte dos líderes aprende a demitir, a dar uma devolutiva ruim e a segurar um prazo errando com gente de verdade. O treinamento acontece — só que o laboratório é a equipe.

    Ensaiar não é infantil. Piloto cai no simulador antes de cair no ar. Cirurgião opera em modelo. Ator erra no ensaio para acertar na estreia. Só no ambiente corporativo isso soa como brincadeira.

    Vale inclusive para quem não tem estrutura nenhuma: gravar a resposta no celular, ouvir de novo, refazer. É desconfortável e funciona.

    Eu faço isso antes de entrevista e antes de reunião de proposta. Continua sendo desconfortável.

    Comunicação na prática: ensaiar antes de precisar.
  • Quem ensina aprende duas vezes

    Fui para a licenciatura depois de anos dirigindo. Achei que ia ensinar o que já sabia.

    O que aconteceu foi outra coisa.

    Projeto de intervenção pedagógica tem uma exigência que produção audiovisual não tem: você precisa declarar antes o que espera que aconteça, e depois registrar o que aconteceu de fato. Não é relatório de entrega. É comparação entre previsão e resultado.

    No mercado, isso quase não existe. A gente entrega o filme, o cliente aprova, todo mundo comemora e ninguém volta para perguntar se o que a gente esperava que acontecesse aconteceu. O projeto termina no aceite, não no efeito.

    Em sala, o efeito é visível na hora. Você propõe um exercício e vê, em quarenta minutos, se a turma entendeu. Não dá para se enganar — e não dá para culpar o algoritmo, o cliente ou a verba.

    Isso me tornou melhor no trabalho de fora da sala, e não o contrário. Passei a escrever briefing pensando no que quero que aconteça na cabeça de quem assiste, não no que quero mostrar.

    Quem já é sênior costuma ver docência como algo para depois. Vale considerar o inverso: ela é o lugar onde o próprio método é auditado por quarenta pessoas que não têm nenhum motivo para ser educadas com você.

    Como estruturar uma intervenção pedagógica.

    Prática Profissional, Licenciatura em Artes Visuais, Centro Universitário FAVENI, 2025.

  • O aviso honesto dentro do próprio projeto

    Num dos meus projetos de edital existe um parágrafo que quase ninguém escreveria. Ele diz, em letras maiúsculas, que na edição anterior a nota de corte foi 9,17 e que quase todos os vencedores tinham três ou mais edições realizadas, o que dá bônus de meio ponto — e que este projeto, sendo primeira edição, concorre em desvantagem.

    Isso não está no projeto que vai para a banca. Está no documento interno.

    E é o documento mais útil da pasta.

    Porque a maior perda de tempo em captação não é escrever mal. É escrever bem para o edital errado. Projeto de primeira edição disputando com veteranos numa faixa em que o histórico vale meio ponto perde antes de começar, por mais bonito que esteja.

    Saber disso muda a decisão, não o texto. Você escolhe outro edital, ou aceita concorrer sabendo que é investimento de longo prazo — porque a inscrição de hoje é o histórico que pontua no ano que vem.

    O que eu não faço é fingir para mim mesmo que a chance é maior do que é.

    Otimismo em planilha de captação custa meses. Se o seu material de projeto não tem um lugar onde você escreve a verdade desconfortável, você está usando o mesmo tom para vender e para decidir — e essas duas coisas precisam de tons diferentes.

    Passo a passo até o primeiro patrocínio via lei de incentivo.

    Análise de concorrência do FomentoCultSP ProAC — nota de corte 9,17 na edição anterior; bônus de pontuação para proponentes com edições anteriores realizadas.

  • O treinamento que não chega ao trabalho

    A estratégia só existe quando chega à execução. Antes disso é intenção.

    Chão de fábrica, loja, campo, atendimento, hotelaria, entrega. Muita gente que a empresa precisa mobilizar não senta na frente de um computador em nenhum momento do dia.

    Login, plataforma, senha esquecida, curso de quarenta minutos: tudo isso é atrito. E atrito, para quem tem trinta minutos de intervalo, é o mesmo que proibição.

    O que funciona é conteúdo curto, no celular, dentro da ferramenta que a pessoa já usa, no momento em que ela precisa daquilo. QR code na parede resolve mais do que portal corporativo.

    Não é preguiça de aprender. É turno. A diferença entre as duas leituras decide o desenho inteiro do projeto.

    Comunicação interna nas empresas: exemplos e desafios.
  • Um dia de set, seis entregas

    A montagem acontece uma vez. O que é caro numa diária não é rodar — é armar.

    Quem planeja um roteiro por diária desperdiça justamente a parte mais cara do dia.

    Planejar seis entregas dentro da mesma montagem não é economia de pobre. É desenho de produção. Exige decidir antes o que sai: o filme principal, as versões curtas, os verticais, os cortes por tema, o still, o depoimento cru para o RH.

    Exige também saber dizer não no set. Sem lista fechada, o dia vira captação genérica e a pós-produção vira garimpo — que é onde o orçamento realmente evapora.

    A conta que quase ninguém faz: uma hora a mais de decisão na pré economiza uma semana de pós.

    Mobilização interna: planejar o que sai de cada encontro.
  • Meta que ninguém consegue verificar não é meta

    Editais pedem metas e indicadores. A maioria dos projetos entrega intenções com cara de meta.

    “Ampliar o acesso da população à produção audiovisual local.” Isso é um desejo. Não tem número, não tem prazo, e ninguém consegue dizer, no fim, se aconteceu.

    Meta verificável é outra coisa: quantas sessões, em quantos bairros, para quantas pessoas, com que forma de contagem. Feio de escrever, fácil de auditar.

    A resistência a isso costuma vir de um lugar legítimo — medo de se comprometer com número que talvez não bata. Só que a banca lê essa ausência ao contrário. Ela lê como quem nunca fez, porque quem já executou sabe estimar.

    O detalhe que quase ninguém coloca é o método de aferição. Não basta prometer quinhentos espectadores; é preciso dizer como você vai contar quinhentos espectadores. Lista de presença, contagem na portaria, relatório do espaço. Isso vale ponto e evita problema na prestação de contas.

    E tem a parte que dói: meta ambiciosa demais é tão ruim quanto meta vaga. Prometer trinta sessões com equipe de três pessoas e cinco meses de execução mostra que a conta não foi feita.

    Meta boa é a que você assinaria sabendo que alguém vai conferir.

    Como apresentar proposta de produção em lei de incentivo.

    Critério de objetivos mensuráveis nos editais de fomento (ProAC, Rouanet, FomentoCultSP).

  • A tese em uma frase

    Todo projeto cultural que eu escrevo começa por uma seção chamada a tese, em uma frase.

    Não é enfeite. É teste.

    Se você não consegue dizer o que o filme defende em uma frase, o projeto não está pronto para ser escrito — está pronto para continuar sendo discutido. E projeto que entra em edital sem tese vira sinopse bonita com objetivos genéricos, que é exatamente o material que a banca lê cem vezes por semana.

    A frase precisa afirmar alguma coisa. “Um documentário sobre inteligência artificial” não é tese, é assunto. “O algoritmo organiza o que a gente vê sem nunca saber quem a gente é” é tese: dá para concordar ou discordar dela.

    Escrever essa frase costuma doer, porque ela expõe que o projeto ainda não decidiu o que pensa. Melhor doer no documento do que doer na montagem, dois anos depois, quando o material não converge para lugar nenhum.

    Tem um efeito colateral prático: a tese também resolve o pitch. Você para de explicar o filme por dez minutos e passa a dizer uma frase e esperar a reação.

    Se a pessoa fizer uma pergunta, funcionou. Se ela disser “legal”, não funcionou.

    Como é um modelo de projeto aprovado em lei de incentivo.

    Estrutura de projeto para ProAC ICMS e Rouanet — seção obrigatória de tese e memorial descritivo.

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