Co-criar

Como fazedores de criação publicitária estão se adaptando à IA nas práticas de trabalho.

  • Habilidade tradicional continua sendo o piso

    Uma das conclusões da pesquisa é chata e pouco vendável: dominar IA não substitui dominar o ofício. Soma.

    O profissional que se destaca hoje é o que tem as habilidades tradicionais da área e sabe onde a ferramenta encaixa. Não é o que trocou uma coisa pela outra.

    Isso contraria dois discursos ao mesmo tempo, o que costuma ser sinal de que está certo.

    Contraria quem diz que agora não precisa mais aprender fundamento, porque a máquina faz. Não faz. A máquina entrega variação; a escolha entre variações depende de repertório, e repertório só se constrói olhando muita coisa por muito tempo.

    E contraria quem diz que a ferramenta é irrelevante e que só o talento importa. Também não. Quem entrega em um terço do tempo com a mesma qualidade ganha o projeto, e isso não é injustiça — é como o mercado sempre funcionou com toda tecnologia nova.

    A posição defensável é a do meio, e ela dá mais trabalho: continuar aprofundando o ofício enquanto testa a ferramenta.

    Quem só aprofunda vira artesão caro e lento. Quem só testa vira operador rápido e substituível. A conta fecha para quem faz os dois.

    Andrea Iorio, sobre inteligência artificial aplicada ao trabalho.

    Recorte do Estado da Arte (ESPM, 2023).

  • O LinkedIn como campo de pesquisa

    Quando eu comecei a pesquisa, quase não havia literatura acadêmica sobre uso de IA generativa em criação publicitária. O fenômeno era novo demais para ter passado por revisão por pares.

    Mas havia debate. Muito debate. Em fóruns profissionais, sobretudo no LinkedIn.

    Isso cria um problema metodológico honesto: post de LinkedIn não é dado científico. Tem viés de autopromoção, tem gente performando domínio de ferramenta, tem quem exagera resultado para conseguir cliente.

    E cria também uma oportunidade. Porque é ali que os profissionais estão equacionando empiricamente, em tempo real, como estão integrando a tecnologia. É registro de prática, não de teoria.

    A saída foi tratar esse material pelo que ele é: corpus de discurso profissional, com todos os vieses declarados. Não serve para provar que a IA funciona. Serve para mapear como a categoria está falando sobre o próprio trabalho — o que já é um dado.

    Vale um alerta para quem lê pesquisa e para quem escreve: quando o campo é novo, a alternativa a fonte imperfeita não é fonte perfeita. É nenhuma fonte.

    Melhor uma leitura cuidadosa de material enviesado, com o viés nomeado, do que esperar cinco anos pela literatura que ainda não existe.

    Debate sobre inteligência artificial na publicidade.

    Recorte do Estado da Arte (ESPM, 2023) sobre adaptação de profissionais de criação à IA.

  • Como o fazedor se adapta

    A pergunta que eu levei para o mestrado em 2023 foi essa: como os fazedores da criação publicitária estão se adaptando à introdução da IA nas práticas de trabalho deles?

    Note o recorte. Não é se a IA é boa. Não é se ela substitui. É como quem faz está se adaptando — no gerúndio, enquanto acontece.

    Escolhi assim porque a outra pergunta já tinha resposta pronta demais dos dois lados. E porque prática de trabalho é onde a transformação aparece antes de virar discurso.

    O termo maker, fazedor, também não foi por acaso. Ele desloca o foco do cargo para o gesto. Numa agência, quem faz nem sempre é quem assina — e é quem faz que descobre primeiro o que a ferramenta muda.

    O que apareceu na pesquisa foi menos dramático e mais interessante do que o debate público sugere: a mudança não estava no talento nem na criatividade. Estava na dinâmica colaborativa. Quem pede o quê, para quem, em que ordem.

    Co-criação sempre foi uma negociação entre pessoas. Quando entra um agente que responde em segundos e não se cansa, a negociação muda de forma — não porque a máquina cria, mas porque ela reorganiza quem espera por quem.

    Inteligência artificial na publicidade e propaganda.

    SAMPAIO, Marcello. Inteligência Artificial e os Impactos na Forma de Co-Criar. Projeto de Estado da Arte, Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo, ESPM, 2023.

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