Projeto de verdade

Escrever projeto cultural que sobrevive à banca: tese, metas verificáveis e honestidade sobre a concorrência.

  • O aviso honesto dentro do próprio projeto

    Num dos meus projetos de edital existe um parágrafo que quase ninguém escreveria. Ele diz, em letras maiúsculas, que na edição anterior a nota de corte foi 9,17 e que quase todos os vencedores tinham três ou mais edições realizadas, o que dá bônus de meio ponto — e que este projeto, sendo primeira edição, concorre em desvantagem.

    Isso não está no projeto que vai para a banca. Está no documento interno.

    E é o documento mais útil da pasta.

    Porque a maior perda de tempo em captação não é escrever mal. É escrever bem para o edital errado. Projeto de primeira edição disputando com veteranos numa faixa em que o histórico vale meio ponto perde antes de começar, por mais bonito que esteja.

    Saber disso muda a decisão, não o texto. Você escolhe outro edital, ou aceita concorrer sabendo que é investimento de longo prazo — porque a inscrição de hoje é o histórico que pontua no ano que vem.

    O que eu não faço é fingir para mim mesmo que a chance é maior do que é.

    Otimismo em planilha de captação custa meses. Se o seu material de projeto não tem um lugar onde você escreve a verdade desconfortável, você está usando o mesmo tom para vender e para decidir — e essas duas coisas precisam de tons diferentes.

    Passo a passo até o primeiro patrocínio via lei de incentivo.

    Análise de concorrência do FomentoCultSP ProAC — nota de corte 9,17 na edição anterior; bônus de pontuação para proponentes com edições anteriores realizadas.

  • Meta que ninguém consegue verificar não é meta

    Editais pedem metas e indicadores. A maioria dos projetos entrega intenções com cara de meta.

    “Ampliar o acesso da população à produção audiovisual local.” Isso é um desejo. Não tem número, não tem prazo, e ninguém consegue dizer, no fim, se aconteceu.

    Meta verificável é outra coisa: quantas sessões, em quantos bairros, para quantas pessoas, com que forma de contagem. Feio de escrever, fácil de auditar.

    A resistência a isso costuma vir de um lugar legítimo — medo de se comprometer com número que talvez não bata. Só que a banca lê essa ausência ao contrário. Ela lê como quem nunca fez, porque quem já executou sabe estimar.

    O detalhe que quase ninguém coloca é o método de aferição. Não basta prometer quinhentos espectadores; é preciso dizer como você vai contar quinhentos espectadores. Lista de presença, contagem na portaria, relatório do espaço. Isso vale ponto e evita problema na prestação de contas.

    E tem a parte que dói: meta ambiciosa demais é tão ruim quanto meta vaga. Prometer trinta sessões com equipe de três pessoas e cinco meses de execução mostra que a conta não foi feita.

    Meta boa é a que você assinaria sabendo que alguém vai conferir.

    Como apresentar proposta de produção em lei de incentivo.

    Critério de objetivos mensuráveis nos editais de fomento (ProAC, Rouanet, FomentoCultSP).

  • A tese em uma frase

    Todo projeto cultural que eu escrevo começa por uma seção chamada a tese, em uma frase.

    Não é enfeite. É teste.

    Se você não consegue dizer o que o filme defende em uma frase, o projeto não está pronto para ser escrito — está pronto para continuar sendo discutido. E projeto que entra em edital sem tese vira sinopse bonita com objetivos genéricos, que é exatamente o material que a banca lê cem vezes por semana.

    A frase precisa afirmar alguma coisa. “Um documentário sobre inteligência artificial” não é tese, é assunto. “O algoritmo organiza o que a gente vê sem nunca saber quem a gente é” é tese: dá para concordar ou discordar dela.

    Escrever essa frase costuma doer, porque ela expõe que o projeto ainda não decidiu o que pensa. Melhor doer no documento do que doer na montagem, dois anos depois, quando o material não converge para lugar nenhum.

    Tem um efeito colateral prático: a tese também resolve o pitch. Você para de explicar o filme por dez minutos e passa a dizer uma frase e esperar a reação.

    Se a pessoa fizer uma pergunta, funcionou. Se ela disser “legal”, não funcionou.

    Como é um modelo de projeto aprovado em lei de incentivo.

    Estrutura de projeto para ProAC ICMS e Rouanet — seção obrigatória de tese e memorial descritivo.

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