Temporada 1

Janeiro a agosto de 2025. A dissertação: como a IA generativa reconfigura o processo criativo publicitário.

  • Dar sentido continua sendo trabalho humano

    A frase que fecha a pesquisa é essa: a máquina assume a execução, e ao humano resta o que lhe é mais intrínseco — a capacidade de dar sentido, ter intenção e contar histórias que conectam.

    Eu tenho uma implicância com esse tipo de frase, então vale explicar por que ela não é consolo.

    Dar sentido é uma operação concreta, não uma qualidade mística. Significa escolher o que importa dentro de um material que não importa em si. Significa decidir o que fica de fora. Significa assumir uma leitura do mundo e defendê-la quando o cliente discorda.

    Nada disso é sensibilidade. É posição.

    E é por isso que a máquina não faz: não porque falte alma, mas porque ela não tem nada em jogo. Não perde cliente, não perde emprego, não fica com vergonha do trabalho ruim daqui a cinco anos. Sem consequência, não há critério — há só distribuição de probabilidade.

    Quem trabalha com narrativa sempre soube disso, mas nunca precisou dizer em voz alta. Agora precisa, porque virou o argumento comercial.

    A pergunta que eu faria numa entrevista de emprego hoje não é qual ferramenta você usa. É: me conta uma decisão difícil que você tomou num projeto, e por quê.

    Habilidades e competências das profissões do futuro.

    Dissertação (PPGCOM ESPM), considerações finais.

  • Angústias e oportunidades no mesmo depoimento

    Nas entrevistas, quase ninguém tinha uma posição só. A mesma pessoa dizia, com dez minutos de diferença, que a ferramenta libertou o trabalho dela e que ela tem medo de virar dispensável.

    Isso não é contradição. É o estado real do campo.

    Pesquisa que busca coerência acaba forçando o entrevistado para um dos lados e produz um retrato falso — o entusiasta e o resistente, dois personagens que quase não existem em estado puro.

    O que existe é ambivalência. Alívio pela parte chata que sumiu, e desconforto por não saber quanto tempo a parte boa dura.

    Metodologicamente, isso obriga a escutar de um jeito específico: sem apressar a conclusão do entrevistado, sem preencher o silêncio, sem transformar hesitação em resposta. A hesitação é o dado.

    E profissionalmente, obriga a outra coisa: parar de exigir que as pessoas tenham uma posição definida sobre isso. Quem lidera equipe hoje lida com gente que está genuinamente dividida, e tratar essa divisão como falta de adaptação é a forma mais rápida de perder os melhores.

    A pesquisa se propôs a ser rigorosa e sensível. Rigorosa pelo método. Sensível por não simplificar o que as pessoas sentem enquanto o chão se move.

    O que faz um diretor criativo.

    Dissertação (PPGCOM ESPM), capítulo 4 — análise das entrevistas com profissionais de criação.

  • Quem cria costuma ficar invisível

    A gente sabe o nome do artista. Raramente sabe o nome de quem montou, de quem produziu, de quem desenhou o som, de quem fez o color.

    Não é uma injustiça poética. É um problema de mercado. Profissional sem nome público tem menos poder de negociação, e quando o poder de negociação cai, o preço do trabalho cai junto.

    Crédito é barato de dar e caro de não dar.

    Quem lidera equipe consegue mudar isso hoje, sem pedir orçamento a ninguém: creditar por nome no material entregue, no post da empresa, na apresentação para o cliente.

    Não custa dinheiro. Custa lembrar. E funciona como retenção melhor do que boa parte dos benefícios que a empresa anuncia.

    Cultura na Paulista: a obra aparece, o time raramente.
  • O valor saiu da execução

    A conclusão da pesquisa que mais mexe com carreira é essa: o valor do trabalho se deslocou da execução para outro lugar.

    As competências mais valorizadas passaram a ser direção conceitual, curadoria estética e pensamento estratégico. A máquina assume a execução; ao humano resta dar sentido, ter intenção e contar histórias que conectam.

    Escrito assim parece consolo. Não é — é uma má notícia para muita gente, e é melhor dizer.

    Porque uma parte grande do mercado audiovisual brasileiro vende exatamente execução. Edita, finaliza, faz motion, entrega versão, adapta formato. É trabalho legítimo, feito por gente boa, e é a camada que está sendo comprimida primeiro.

    Quem está nessa camada tem dois caminhos, e nenhum é rápido. Subir para a direção conceitual, o que exige construir repertório e assumir risco de opinião. Ou verticalizar tanto a execução que ela vire especialidade rara — o que ainda existe, mas em nichos cada vez mais estreitos.

    O que não funciona é ficar no meio, entregando execução genérica em velocidade humana.

    Se você lidera um time nessa faixa, essa conversa é sua também. Não dá para pedir que as pessoas subam de camada sem dar tempo, projeto e margem de erro para isso acontecer.

    Competências do futuro, na série Trabalho no Futuro.

    Dissertação (PPGCOM ESPM): deslocamento do valor do trabalho da execução para a direção conceitual, a curadoria estética e o pensamento estratégico.

  • O arquivo é o ativo

    Toda operação de conteúdo gera material demais e guarda material de menos.

    O que sobra de um projeto é brutos, versões, artes abertas, aprovações, transcrições, trilha licenciada. Na maioria das produtoras isso vira um HD numa gaveta com o nome do cliente escrito a caneta.

    Um acervo organizado é dinheiro. Rende versão nova, rende corte para outro formato, rende reaproveitamento em campanha futura, rende material de pitch. Você já pagou por ele uma vez.

    Um acervo desorganizado é passivo. Ocupa espaço, gera medo de apagar e não devolve nada.

    A diferença entre os dois não é software. É convenção de nome, uma pessoa responsável e cinco minutos no fim de cada projeto.

    Ninguém acha isso empolgante. É provavelmente a coisa mais lucrativa que uma operação pequena pode fazer neste ano.

    Edição e pós-produção: onde o material vira acervo.
  • O criativo-curador

    A pesquisa apontou o surgimento de uma figura profissional que ainda não tem cargo no organograma: o criativo-curador.

    É quem domina duas coisas ao mesmo tempo — a poética do prompt e a arte da escolha.

    A primeira é a capacidade de pedir bem: enunciar intenção, contexto e restrição de um jeito que a máquina consiga trabalhar. A segunda é mais antiga e mais rara: olhar cinquenta resultados e saber qual serve, e por quê.

    Repare que só a segunda é escassa. Prompt se aprende em algumas semanas de prática. Critério leva anos e não tem atalho, porque depende de repertório acumulado e de ter errado bastante em público.

    Isso reposiciona quem já tem carreira. O profissional com quinze anos de mercado costuma achar que está atrasado porque não domina a ferramenta nova. Está olhando para a metade fácil da equação.

    E reposiciona quem está entrando. Quem aprendeu a operar bem e nunca construiu repertório vai render muito no primeiro ano e travar no terceiro, quando o trabalho deixar de ser executar e passar a ser escolher.

    Curadoria não é uma habilidade acessória que se soma ao ofício. Numa cadeia em que gerar ficou barato, ela virou o ofício.

    Como é o trabalho de uma diretora criativa.

    Dissertação (PPGCOM ESPM), considerações finais · CINTRA, 2024 — “poética do prompt” e “arte da escolha”.

  • Collab não é logo em cima de logo

    Quando duas marcas se juntam, o público não compra a soma. Compra a fricção — o que uma faz com a outra que nenhuma faria sozinha.

    Na prática, quase toda collab morre no meio do caminho. Dois times de aprovação, dois manuais de marca, duas agências, e o resultado é o menor denominador comum: seguro, simétrico e esquecível.

    O que salva é decidir cedo quem tem a caneta criativa. Não a caneta financeira — a criativa. São coisas diferentes e confundir as duas é o erro mais caro do projeto.

    Segunda coisa: fixar o que é inegociável de cada lado antes de começar. Três itens cada, no máximo. Todo o resto entra em negociação de verdade.

    Terceira: mostrar o caminho. Collab que aparece só pronta parece anúncio. Collab que mostra o processo parece encontro. É o mesmo material, montado em ordem diferente.

    O processo criativo por trás de uma collab de marca.
  • São Paulo, 2022 a 2024

    Toda pesquisa honesta declara o que não é. A minha diz, logo no recorte: este estudo é sobre processo de trabalho e competências. Não é sobre ética nem sobre regulamentação da inteligência artificial.

    Também declara onde e quando: publicidade audiovisual brasileira, foco em São Paulo, período de 2022 a 2024.

    Isso parece burocracia acadêmica e é o contrário. É a parte que impede a pesquisa de virar opinião com bibliografia.

    Recorte geográfico importa porque São Paulo concentra a maior parte das agências e produtoras do país, com uma dinâmica que não é a do resto do Brasil. Recorte temporal importa porque 2022 a 2024 é exatamente a janela em que essas ferramentas saíram do experimento e entraram na rotina.

    Quem lê pesquisa sem olhar o recorte transforma achado local em lei universal. Quem escreve pesquisa sem declarar o recorte permite que isso aconteça.

    No mercado é igual. Quando alguém diz “o mercado está fazendo assim”, vale perguntar qual mercado, onde, em que ano e com que porte de operação. Metade dos conselhos que circulam no LinkedIn são verdadeiros dentro de um recorte que ninguém enunciou.

    Declarar limite não enfraquece o argumento. É o que o torna verificável.

    As diferenças entre designer, diretor de arte e diretor de criação.

    Recorte metodológico da dissertação: publicidade audiovisual brasileira, foco geográfico em São Paulo, período de 2022 a 2024.

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