O criativo-curador

O deslocamento do valor do trabalho: da execução para a direção conceitual, a curadoria e o critério.

  • Dar sentido continua sendo trabalho humano

    A frase que fecha a pesquisa é essa: a máquina assume a execução, e ao humano resta o que lhe é mais intrínseco — a capacidade de dar sentido, ter intenção e contar histórias que conectam.

    Eu tenho uma implicância com esse tipo de frase, então vale explicar por que ela não é consolo.

    Dar sentido é uma operação concreta, não uma qualidade mística. Significa escolher o que importa dentro de um material que não importa em si. Significa decidir o que fica de fora. Significa assumir uma leitura do mundo e defendê-la quando o cliente discorda.

    Nada disso é sensibilidade. É posição.

    E é por isso que a máquina não faz: não porque falte alma, mas porque ela não tem nada em jogo. Não perde cliente, não perde emprego, não fica com vergonha do trabalho ruim daqui a cinco anos. Sem consequência, não há critério — há só distribuição de probabilidade.

    Quem trabalha com narrativa sempre soube disso, mas nunca precisou dizer em voz alta. Agora precisa, porque virou o argumento comercial.

    A pergunta que eu faria numa entrevista de emprego hoje não é qual ferramenta você usa. É: me conta uma decisão difícil que você tomou num projeto, e por quê.

    Habilidades e competências das profissões do futuro.

    Dissertação (PPGCOM ESPM), considerações finais.

  • Angústias e oportunidades no mesmo depoimento

    Nas entrevistas, quase ninguém tinha uma posição só. A mesma pessoa dizia, com dez minutos de diferença, que a ferramenta libertou o trabalho dela e que ela tem medo de virar dispensável.

    Isso não é contradição. É o estado real do campo.

    Pesquisa que busca coerência acaba forçando o entrevistado para um dos lados e produz um retrato falso — o entusiasta e o resistente, dois personagens que quase não existem em estado puro.

    O que existe é ambivalência. Alívio pela parte chata que sumiu, e desconforto por não saber quanto tempo a parte boa dura.

    Metodologicamente, isso obriga a escutar de um jeito específico: sem apressar a conclusão do entrevistado, sem preencher o silêncio, sem transformar hesitação em resposta. A hesitação é o dado.

    E profissionalmente, obriga a outra coisa: parar de exigir que as pessoas tenham uma posição definida sobre isso. Quem lidera equipe hoje lida com gente que está genuinamente dividida, e tratar essa divisão como falta de adaptação é a forma mais rápida de perder os melhores.

    A pesquisa se propôs a ser rigorosa e sensível. Rigorosa pelo método. Sensível por não simplificar o que as pessoas sentem enquanto o chão se move.

    O que faz um diretor criativo.

    Dissertação (PPGCOM ESPM), capítulo 4 — análise das entrevistas com profissionais de criação.

  • O valor saiu da execução

    A conclusão da pesquisa que mais mexe com carreira é essa: o valor do trabalho se deslocou da execução para outro lugar.

    As competências mais valorizadas passaram a ser direção conceitual, curadoria estética e pensamento estratégico. A máquina assume a execução; ao humano resta dar sentido, ter intenção e contar histórias que conectam.

    Escrito assim parece consolo. Não é — é uma má notícia para muita gente, e é melhor dizer.

    Porque uma parte grande do mercado audiovisual brasileiro vende exatamente execução. Edita, finaliza, faz motion, entrega versão, adapta formato. É trabalho legítimo, feito por gente boa, e é a camada que está sendo comprimida primeiro.

    Quem está nessa camada tem dois caminhos, e nenhum é rápido. Subir para a direção conceitual, o que exige construir repertório e assumir risco de opinião. Ou verticalizar tanto a execução que ela vire especialidade rara — o que ainda existe, mas em nichos cada vez mais estreitos.

    O que não funciona é ficar no meio, entregando execução genérica em velocidade humana.

    Se você lidera um time nessa faixa, essa conversa é sua também. Não dá para pedir que as pessoas subam de camada sem dar tempo, projeto e margem de erro para isso acontecer.

    Competências do futuro, na série Trabalho no Futuro.

    Dissertação (PPGCOM ESPM): deslocamento do valor do trabalho da execução para a direção conceitual, a curadoria estética e o pensamento estratégico.

  • O criativo-curador

    A pesquisa apontou o surgimento de uma figura profissional que ainda não tem cargo no organograma: o criativo-curador.

    É quem domina duas coisas ao mesmo tempo — a poética do prompt e a arte da escolha.

    A primeira é a capacidade de pedir bem: enunciar intenção, contexto e restrição de um jeito que a máquina consiga trabalhar. A segunda é mais antiga e mais rara: olhar cinquenta resultados e saber qual serve, e por quê.

    Repare que só a segunda é escassa. Prompt se aprende em algumas semanas de prática. Critério leva anos e não tem atalho, porque depende de repertório acumulado e de ter errado bastante em público.

    Isso reposiciona quem já tem carreira. O profissional com quinze anos de mercado costuma achar que está atrasado porque não domina a ferramenta nova. Está olhando para a metade fácil da equação.

    E reposiciona quem está entrando. Quem aprendeu a operar bem e nunca construiu repertório vai render muito no primeiro ano e travar no terceiro, quando o trabalho deixar de ser executar e passar a ser escolher.

    Curadoria não é uma habilidade acessória que se soma ao ofício. Numa cadeia em que gerar ficou barato, ela virou o ofício.

    Como é o trabalho de uma diretora criativa.

    Dissertação (PPGCOM ESPM), considerações finais · CINTRA, 2024 — “poética do prompt” e “arte da escolha”.

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