Temporada 1

Janeiro a agosto de 2025. A dissertação: como a IA generativa reconfigura o processo criativo publicitário.

  • O meio não é neutro

    McLuhan é citado em toda apresentação de PowerPoint e entendido em quase nenhuma. A frase vira slogan: o meio é a mensagem.

    O que ele quer dizer é menos bonito e mais útil: o meio não transporta conteúdo de forma neutra. Ele reorganiza a percepção de quem recebe, independentemente do que está sendo dito.

    Aplicado à inteligência artificial, isso muda o enquadramento inteiro. A IA não é um instrumento dentro do ambiente. Ela é um ambiente que reconfigura práticas — inclusive as práticas de consumo.

    O exemplo concreto está no scroll. A aceleração da produção de conteúdo alimenta a lógica do rolar infinito e do consumo fragmentado, o que por sua vez exige que a peça publicitária seja mais imediata e mais impactante. E aí a ferramenta que permite gerar cinquenta versões adaptadas por público entra como resposta a uma condição que ela mesma ajudou a criar.

    É um ciclo, não uma linha.

    Bolter e Grusin chamam de remediação o processo pelo qual um meio novo não apenas substitui o anterior, mas o refaz. A IA está remediando a publicidade: não está inventando um gênero novo, está reprocessando o que já existia com outra velocidade e outra escala.

    Quem trata isso como “mais uma ferramenta no arsenal” está subestimando o que está mexendo no próprio terreno.

    Marshall McLuhan e a ideia de que o meio é a mensagem.

    Dissertação (PPGCOM ESPM), referencial teórico · McLUHAN · BOLTER; GRUSIN, 2000.

  • Curadoria não é volume

    Todo veículo novo começa querendo publicar muito. Volume vira métrica porque é a única coisa fácil de medir na primeira semana.

    A NOWNESS faz o oposto: publica pouco e escolhe bem. O valor está na seleção, não na quantidade.

    Curadoria é assumir responsabilidade pela escolha. Você diz “isso aqui presta” e responde por isso depois. É um risco pequeno e diário, e é exatamente por isso que quase ninguém topa.

    Agregador automático não faz isso. Ele empurra e sai de perto.

    Num mercado com excesso de oferta, o trabalho escasso não é produzir. É recortar.

    Se o seu diferencial é publicar mais que os outros, você não tem diferencial. Tem custo.

    Do rascunho ao mural: o trabalho que ninguém vê.
  • Membro artificial da equipe

    Uma das expressões que a pesquisa encontrou no campo é forte e desconfortável: membro artificial da equipe criativa.

    É desconfortável porque parece exagero de quem vende ferramenta. E é forte porque descreve com precisão o que acontece na prática.

    Lévy já escrevia, em 1998, sobre inteligência coletiva — a ideia de que a cognição não fica dentro de uma cabeça, mas se distribui entre pessoas, suportes e técnicas. O que estamos vendo é uma extensão disso: cognição híbrida, unindo mentes humanas e algoritmos no mesmo processo.

    Na prática de agência, isso aparece de um jeito banal. Alguém diz “pedi para ele três caminhos”. O pronome já mudou. Não é “gerei três caminhos”, é “pedi”.

    Linguagem não é detalhe. Quando a equipe passa a falar de uma ferramenta como se fala de um colega, ela já reorganizou o lugar daquilo no fluxo — mesmo que ninguém tenha decidido isso formalmente.

    O risco é conhecido e vale nomear: atribuir agência a um sistema que não tem intenção facilita transferir responsabilidade para ele. “A IA sugeriu” não é justificativa para nada. Continua sendo alguém que pediu, alguém que escolheu e alguém que assinou.

    Membro da equipe, sim. Membro que responde por decisão, não.

    O que faz um diretor de criação na publicidade.

    Dissertação (PPGCOM ESPM), discussão dos resultados · FIGUEIREDO, 2024 · LÉVY, 1998.

  • Formato repetido vira assinatura

    A COLORS filma o artista numa sala de cor sólida. Sempre igual. Virou assinatura. A Boiler Room aponta a câmera para dentro da pista, sem palco. Sempre igual. Virou assinatura.

    A tentação de quem começa é o contrário: cada vídeo com um conceito novo, cada post com um layout novo. O resultado é que nada gruda.

    Formato fixo é barato e é memória ao mesmo tempo. Custa menos produzir porque as decisões já foram tomadas. Custa menos decidir porque o gabarito existe. E o público reconhece antes de ler o título.

    A variedade fica no conteúdo. A embalagem se repete.

    Isso vale para canal, para série interna de empresa, para newsletter e para conteúdo de marca. Vale aqui também: se você reparar, esses textos têm sempre o mesmo tamanho e a mesma estrutura.

    Não é falta de imaginação. É economia de atenção — a minha e a sua.

    Um processo criativo contado do começo ao fim.

    Benchmarking editorial: COLORS, Boiler Room, KEXP.

  • Do fluxo em cascata para o fluxo conversacional

    O achado central da pesquisa cabe em uma frase: o fluxo de trabalho criativo deixou de ser linear e em cascata e passou a ser conversacional e híbrido.

    Cascata é o modelo que todo mundo aprendeu. Briefing desce para o planejamento, planejamento desce para a criação, criação desce para a produção, produção desce para a pós. Cada etapa entrega para a seguinte e sai de cena.

    Conversacional é outra coisa: as etapas passam a se responder. A produção informa a criação antes de a criação terminar. A pós devolve uma pergunta que muda o roteiro. O briefing é reescrito porque um teste rápido mostrou que a premissa estava errada.

    Não foi a inteligência artificial que inventou isso. Equipe boa sempre conversou fora da ordem oficial. O que mudou é que agora dá para testar a resposta em minutos, e o que era conversa vira evidência.

    A consequência ruim é que o modelo em cascata era também um modelo de responsabilidade. Cada fase tinha dono. Quando tudo conversa com tudo, some a fronteira do erro — e ninguém sabe em que etapa a decisão ruim entrou.

    Por isso a resposta não é abolir o processo. É trocar o controle por etapa pelo controle por decisão registrada: o que foi decidido, por quem, com base em quê.

    Quem coordena produção vai passar os próximos anos aprendendo a fazer isso.

    O processo criativo na publicidade, com Leopitapos Barcellos.

    Achado central da dissertação (PPGCOM ESPM): transição de um modelo linear e em cascata para um modelo conversacional e híbrido.

  • O país vê a obra pronta

    O Brasil consome obra pronta e quase nunca vê o processo. O clipe aparece, a campanha aparece, o filme aparece. O que aconteceu antes some.

    Isso não é um detalhe romântico. Some junto a informação mais útil que existe para quem quer trabalhar com isso: como a decisão foi tomada.

    Um making of decente não é bastidor divertido com gente rindo atrás da câmera. É o registro das escolhas. O que foi cortado. O que não coube no orçamento. O que mudou depois do primeiro corte e por quê.

    Quando o processo fica escondido, o mercado inteiro fica mais caro. Cada geração reaprende do zero coisas que já eram sabidas há vinte anos.

    Não estou defendendo transparência total. Existe cliente, existe acordo de confidencialidade, existe coisa que não se conta. Mas entre o sigilo necessário e o silêncio absoluto há um espaço enorme, e quase ninguém ocupa.

    Escrevo aqui em parte por isso.

    Murilo Gun sobre processo criativo, no TEDxRecife.

    Nota de planejamento editorial do projeto Acorda Mídia — portal sobre cultura em processo.

  • O terceiro elemento na dupla de criação

    A publicidade brasileira organizou seu núcleo criativo em torno de uma dupla: diretor de arte e redator. Carrascoza descreve isso como o motor do processo — dois sujeitos colaborando e se confrontando até o briefing virar conceito.

    A minha pesquisa de mestrado encontrou um terceiro entrando nessa sala.

    Não como ferramenta. Como participante da conversa.

    A distinção parece sutil e não é. Ferramenta você opera: pega, usa, larga. Participante você consulta, discorda, reformula o pedido, recebe algo que não esperava e muda de ideia por causa disso. É outra relação, e ela reorganiza o ritmo da dupla.

    O que mudou concretamente foi o momento do confronto. Antes, a discordância acontecia entre as duas pessoas, e demorava — você levava uma ideia, o outro rebatia, vocês voltavam no dia seguinte. Agora existe uma camada anterior: cada um chega com dez versões já testadas contra a máquina.

    Isso acelera e empobrece ao mesmo tempo, dependendo de quem está na sala. Dupla madura usa o material gerado como matéria de discussão. Dupla insegura usa como substituto da discussão — apresenta o que a máquina deu e evita defender uma posição própria.

    O terceiro elemento não decide nada. Mas ele muda a coreografia de quem decide.

    Como funciona o processo criativo dentro de uma agência.

    SAMPAIO, Marcello. O processo criativo em transformação. Dissertação de mestrado, PPGCOM ESPM, cap. 4 · CARRASCOZA, 2008.

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