Carreira

Posicionamento, liderança, trajetória e as escolhas que constroem senioridade.

  • Quem ensina aprende duas vezes

    Fui para a licenciatura depois de anos dirigindo. Achei que ia ensinar o que já sabia.

    O que aconteceu foi outra coisa.

    Projeto de intervenção pedagógica tem uma exigência que produção audiovisual não tem: você precisa declarar antes o que espera que aconteça, e depois registrar o que aconteceu de fato. Não é relatório de entrega. É comparação entre previsão e resultado.

    No mercado, isso quase não existe. A gente entrega o filme, o cliente aprova, todo mundo comemora e ninguém volta para perguntar se o que a gente esperava que acontecesse aconteceu. O projeto termina no aceite, não no efeito.

    Em sala, o efeito é visível na hora. Você propõe um exercício e vê, em quarenta minutos, se a turma entendeu. Não dá para se enganar — e não dá para culpar o algoritmo, o cliente ou a verba.

    Isso me tornou melhor no trabalho de fora da sala, e não o contrário. Passei a escrever briefing pensando no que quero que aconteça na cabeça de quem assiste, não no que quero mostrar.

    Quem já é sênior costuma ver docência como algo para depois. Vale considerar o inverso: ela é o lugar onde o próprio método é auditado por quarenta pessoas que não têm nenhum motivo para ser educadas com você.

    Como estruturar uma intervenção pedagógica.

    Prática Profissional, Licenciatura em Artes Visuais, Centro Universitário FAVENI, 2025.

  • A sala devolve o que a reunião esconde

    Numa reunião de trabalho, quando a explicação não funciona, as pessoas fazem cara de que entenderam.

    Elas fazem isso por educação, por hierarquia, por cansaço, por não querer parecer lentas. E o resultado é que você sai da reunião achando que alinhou, e descobre duas semanas depois que cada um entendeu uma coisa.

    Turma de Fundamental II não faz isso.

    Se a explicação foi ruim, aparece em cinco segundos: alguém pergunta a coisa óbvia, alguém começa a conversar, alguém desiste. Você recebe o retorno mais honesto do mundo, sem filtro e sem política.

    É desconfortável e é útil. Depois de algumas aulas, você para de explicar do jeito que faz sentido para você e começa a explicar do jeito que entra.

    A transferência para o mercado é direta. Briefing, direção de elenco, alinhamento de equipe e apresentação de projeto são todos atos de ensino — e todos sofrem do mesmo problema de assumir compreensão que não existe.

    Quem só apresenta para adulto educado nunca descobre que explica mal.

    Conteúdo e prática do ensino de artes nos anos iniciais.

    Registro de prática docente em Artes Visuais, Ensino Fundamental II, 2025.

  • Dar sentido continua sendo trabalho humano

    A frase que fecha a pesquisa é essa: a máquina assume a execução, e ao humano resta o que lhe é mais intrínseco — a capacidade de dar sentido, ter intenção e contar histórias que conectam.

    Eu tenho uma implicância com esse tipo de frase, então vale explicar por que ela não é consolo.

    Dar sentido é uma operação concreta, não uma qualidade mística. Significa escolher o que importa dentro de um material que não importa em si. Significa decidir o que fica de fora. Significa assumir uma leitura do mundo e defendê-la quando o cliente discorda.

    Nada disso é sensibilidade. É posição.

    E é por isso que a máquina não faz: não porque falte alma, mas porque ela não tem nada em jogo. Não perde cliente, não perde emprego, não fica com vergonha do trabalho ruim daqui a cinco anos. Sem consequência, não há critério — há só distribuição de probabilidade.

    Quem trabalha com narrativa sempre soube disso, mas nunca precisou dizer em voz alta. Agora precisa, porque virou o argumento comercial.

    A pergunta que eu faria numa entrevista de emprego hoje não é qual ferramenta você usa. É: me conta uma decisão difícil que você tomou num projeto, e por quê.

    Habilidades e competências das profissões do futuro.

    Dissertação (PPGCOM ESPM), considerações finais.

  • Angústias e oportunidades no mesmo depoimento

    Nas entrevistas, quase ninguém tinha uma posição só. A mesma pessoa dizia, com dez minutos de diferença, que a ferramenta libertou o trabalho dela e que ela tem medo de virar dispensável.

    Isso não é contradição. É o estado real do campo.

    Pesquisa que busca coerência acaba forçando o entrevistado para um dos lados e produz um retrato falso — o entusiasta e o resistente, dois personagens que quase não existem em estado puro.

    O que existe é ambivalência. Alívio pela parte chata que sumiu, e desconforto por não saber quanto tempo a parte boa dura.

    Metodologicamente, isso obriga a escutar de um jeito específico: sem apressar a conclusão do entrevistado, sem preencher o silêncio, sem transformar hesitação em resposta. A hesitação é o dado.

    E profissionalmente, obriga a outra coisa: parar de exigir que as pessoas tenham uma posição definida sobre isso. Quem lidera equipe hoje lida com gente que está genuinamente dividida, e tratar essa divisão como falta de adaptação é a forma mais rápida de perder os melhores.

    A pesquisa se propôs a ser rigorosa e sensível. Rigorosa pelo método. Sensível por não simplificar o que as pessoas sentem enquanto o chão se move.

    O que faz um diretor criativo.

    Dissertação (PPGCOM ESPM), capítulo 4 — análise das entrevistas com profissionais de criação.

  • Quem cria costuma ficar invisível

    A gente sabe o nome do artista. Raramente sabe o nome de quem montou, de quem produziu, de quem desenhou o som, de quem fez o color.

    Não é uma injustiça poética. É um problema de mercado. Profissional sem nome público tem menos poder de negociação, e quando o poder de negociação cai, o preço do trabalho cai junto.

    Crédito é barato de dar e caro de não dar.

    Quem lidera equipe consegue mudar isso hoje, sem pedir orçamento a ninguém: creditar por nome no material entregue, no post da empresa, na apresentação para o cliente.

    Não custa dinheiro. Custa lembrar. E funciona como retenção melhor do que boa parte dos benefícios que a empresa anuncia.

    Cultura na Paulista: a obra aparece, o time raramente.
  • O valor saiu da execução

    A conclusão da pesquisa que mais mexe com carreira é essa: o valor do trabalho se deslocou da execução para outro lugar.

    As competências mais valorizadas passaram a ser direção conceitual, curadoria estética e pensamento estratégico. A máquina assume a execução; ao humano resta dar sentido, ter intenção e contar histórias que conectam.

    Escrito assim parece consolo. Não é — é uma má notícia para muita gente, e é melhor dizer.

    Porque uma parte grande do mercado audiovisual brasileiro vende exatamente execução. Edita, finaliza, faz motion, entrega versão, adapta formato. É trabalho legítimo, feito por gente boa, e é a camada que está sendo comprimida primeiro.

    Quem está nessa camada tem dois caminhos, e nenhum é rápido. Subir para a direção conceitual, o que exige construir repertório e assumir risco de opinião. Ou verticalizar tanto a execução que ela vire especialidade rara — o que ainda existe, mas em nichos cada vez mais estreitos.

    O que não funciona é ficar no meio, entregando execução genérica em velocidade humana.

    Se você lidera um time nessa faixa, essa conversa é sua também. Não dá para pedir que as pessoas subam de camada sem dar tempo, projeto e margem de erro para isso acontecer.

    Competências do futuro, na série Trabalho no Futuro.

    Dissertação (PPGCOM ESPM): deslocamento do valor do trabalho da execução para a direção conceitual, a curadoria estética e o pensamento estratégico.

  • O criativo-curador

    A pesquisa apontou o surgimento de uma figura profissional que ainda não tem cargo no organograma: o criativo-curador.

    É quem domina duas coisas ao mesmo tempo — a poética do prompt e a arte da escolha.

    A primeira é a capacidade de pedir bem: enunciar intenção, contexto e restrição de um jeito que a máquina consiga trabalhar. A segunda é mais antiga e mais rara: olhar cinquenta resultados e saber qual serve, e por quê.

    Repare que só a segunda é escassa. Prompt se aprende em algumas semanas de prática. Critério leva anos e não tem atalho, porque depende de repertório acumulado e de ter errado bastante em público.

    Isso reposiciona quem já tem carreira. O profissional com quinze anos de mercado costuma achar que está atrasado porque não domina a ferramenta nova. Está olhando para a metade fácil da equação.

    E reposiciona quem está entrando. Quem aprendeu a operar bem e nunca construiu repertório vai render muito no primeiro ano e travar no terceiro, quando o trabalho deixar de ser executar e passar a ser escolher.

    Curadoria não é uma habilidade acessória que se soma ao ofício. Numa cadeia em que gerar ficou barato, ela virou o ofício.

    Como é o trabalho de uma diretora criativa.

    Dissertação (PPGCOM ESPM), considerações finais · CINTRA, 2024 — “poética do prompt” e “arte da escolha”.

  • Ah, então você quer ser estratégico, né? Quer ir com calma, “devagar se vai ao longe”, e…

    Ah, então você quer ser estratégico, né? Quer ir com calma, “devagar se vai ao longe”, e…

    Ah, então você quer ser estratégico, né? Quer ir com calma, “devagar se vai ao longe”, e blá blá blá? Que bonitinho! Só que a vida real, meu amigo, é um pouquinho diferente dessa sua fábula da tartaruga e da lebre.
    Sabe qual o problema de ir devagar demais? Você vai acabar é comendo poeira! Enquanto você fica aí filosofando sobre a “importância da lentidão”, os outros já estão dando a volta ao mundo, fechando negócios e conquistando tudo que você sonha.
    “Ah, mas a pressa é inimiga da perfeição”. É, pode ser. Mas sabe o que mais é inimiga da perfeição? A INAÇÃO! Ficar parado, esperando o momento “certo”, é a receita perfeita para o fracasso.
    Claro, não estou dizendo para sair correndo feito um louco, tropeçando nos próprios pés. Estratégia é importante, sim. Mas estratégia sem ação é como um carro sem motor: bonito, mas não vai te levar a lugar nenhum.
    Então, meu conselho é: pare de enrolar! Defina seus objetivos, trace um plano e comece a AGIR. Se precisar ir devagar em algum momento, vá. Mas não use isso como desculpa para procrastinar. O mundo não vai esperar por você.
    E lembre-se: a tartaruga só ganhou a corrida porque a lebre tirou uma soneca. Se a lebre tivesse mantido o foco, a tartaruga estaria até hoje lá atrás, comendo poeira.
    Ver menos

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