IA aplicada

Inteligência artificial dentro do processo — pesquisa, roteiro, decupagem, versionamento, QA. Ferramenta, não posicionamento.

  • O meio não é neutro

    McLuhan é citado em toda apresentação de PowerPoint e entendido em quase nenhuma. A frase vira slogan: o meio é a mensagem.

    O que ele quer dizer é menos bonito e mais útil: o meio não transporta conteúdo de forma neutra. Ele reorganiza a percepção de quem recebe, independentemente do que está sendo dito.

    Aplicado à inteligência artificial, isso muda o enquadramento inteiro. A IA não é um instrumento dentro do ambiente. Ela é um ambiente que reconfigura práticas — inclusive as práticas de consumo.

    O exemplo concreto está no scroll. A aceleração da produção de conteúdo alimenta a lógica do rolar infinito e do consumo fragmentado, o que por sua vez exige que a peça publicitária seja mais imediata e mais impactante. E aí a ferramenta que permite gerar cinquenta versões adaptadas por público entra como resposta a uma condição que ela mesma ajudou a criar.

    É um ciclo, não uma linha.

    Bolter e Grusin chamam de remediação o processo pelo qual um meio novo não apenas substitui o anterior, mas o refaz. A IA está remediando a publicidade: não está inventando um gênero novo, está reprocessando o que já existia com outra velocidade e outra escala.

    Quem trata isso como “mais uma ferramenta no arsenal” está subestimando o que está mexendo no próprio terreno.

    Marshall McLuhan e a ideia de que o meio é a mensagem.

    Dissertação (PPGCOM ESPM), referencial teórico · McLUHAN · BOLTER; GRUSIN, 2000.

  • Membro artificial da equipe

    Uma das expressões que a pesquisa encontrou no campo é forte e desconfortável: membro artificial da equipe criativa.

    É desconfortável porque parece exagero de quem vende ferramenta. E é forte porque descreve com precisão o que acontece na prática.

    Lévy já escrevia, em 1998, sobre inteligência coletiva — a ideia de que a cognição não fica dentro de uma cabeça, mas se distribui entre pessoas, suportes e técnicas. O que estamos vendo é uma extensão disso: cognição híbrida, unindo mentes humanas e algoritmos no mesmo processo.

    Na prática de agência, isso aparece de um jeito banal. Alguém diz “pedi para ele três caminhos”. O pronome já mudou. Não é “gerei três caminhos”, é “pedi”.

    Linguagem não é detalhe. Quando a equipe passa a falar de uma ferramenta como se fala de um colega, ela já reorganizou o lugar daquilo no fluxo — mesmo que ninguém tenha decidido isso formalmente.

    O risco é conhecido e vale nomear: atribuir agência a um sistema que não tem intenção facilita transferir responsabilidade para ele. “A IA sugeriu” não é justificativa para nada. Continua sendo alguém que pediu, alguém que escolheu e alguém que assinou.

    Membro da equipe, sim. Membro que responde por decisão, não.

    O que faz um diretor de criação na publicidade.

    Dissertação (PPGCOM ESPM), discussão dos resultados · FIGUEIREDO, 2024 · LÉVY, 1998.

  • Do fluxo em cascata para o fluxo conversacional

    O achado central da pesquisa cabe em uma frase: o fluxo de trabalho criativo deixou de ser linear e em cascata e passou a ser conversacional e híbrido.

    Cascata é o modelo que todo mundo aprendeu. Briefing desce para o planejamento, planejamento desce para a criação, criação desce para a produção, produção desce para a pós. Cada etapa entrega para a seguinte e sai de cena.

    Conversacional é outra coisa: as etapas passam a se responder. A produção informa a criação antes de a criação terminar. A pós devolve uma pergunta que muda o roteiro. O briefing é reescrito porque um teste rápido mostrou que a premissa estava errada.

    Não foi a inteligência artificial que inventou isso. Equipe boa sempre conversou fora da ordem oficial. O que mudou é que agora dá para testar a resposta em minutos, e o que era conversa vira evidência.

    A consequência ruim é que o modelo em cascata era também um modelo de responsabilidade. Cada fase tinha dono. Quando tudo conversa com tudo, some a fronteira do erro — e ninguém sabe em que etapa a decisão ruim entrou.

    Por isso a resposta não é abolir o processo. É trocar o controle por etapa pelo controle por decisão registrada: o que foi decidido, por quem, com base em quê.

    Quem coordena produção vai passar os próximos anos aprendendo a fazer isso.

    O processo criativo na publicidade, com Leopitapos Barcellos.

    Achado central da dissertação (PPGCOM ESPM): transição de um modelo linear e em cascata para um modelo conversacional e híbrido.

  • O terceiro elemento na dupla de criação

    A publicidade brasileira organizou seu núcleo criativo em torno de uma dupla: diretor de arte e redator. Carrascoza descreve isso como o motor do processo — dois sujeitos colaborando e se confrontando até o briefing virar conceito.

    A minha pesquisa de mestrado encontrou um terceiro entrando nessa sala.

    Não como ferramenta. Como participante da conversa.

    A distinção parece sutil e não é. Ferramenta você opera: pega, usa, larga. Participante você consulta, discorda, reformula o pedido, recebe algo que não esperava e muda de ideia por causa disso. É outra relação, e ela reorganiza o ritmo da dupla.

    O que mudou concretamente foi o momento do confronto. Antes, a discordância acontecia entre as duas pessoas, e demorava — você levava uma ideia, o outro rebatia, vocês voltavam no dia seguinte. Agora existe uma camada anterior: cada um chega com dez versões já testadas contra a máquina.

    Isso acelera e empobrece ao mesmo tempo, dependendo de quem está na sala. Dupla madura usa o material gerado como matéria de discussão. Dupla insegura usa como substituto da discussão — apresenta o que a máquina deu e evita defender uma posição própria.

    O terceiro elemento não decide nada. Mas ele muda a coreografia de quem decide.

    Como funciona o processo criativo dentro de uma agência.

    SAMPAIO, Marcello. O processo criativo em transformação. Dissertação de mestrado, PPGCOM ESPM, cap. 4 · CARRASCOZA, 2008.

  • É importante destacar que a IA não substitui a nossa criatividade e sensibilidade como p…

    É importante destacar que a IA não substitui a nossa criatividade e sensibilidade como p…

    Uma agência americana de publicidade de saúde que está usando a IA de forma inovadora é a Giant Creative Strategy. A agência criou uma plataforma de IA chamada “Journey Builder” que usa dados de pacientes para personalizar a jornada de marketing de cada paciente. Através da plataforma, a agência pode identificar os pacientes que têm maior probabilidade de responder a um determinado tratamento e criar anúncios personalizados para eles.

    O mercado publicitário de saúde é um setor crucial e em constante evolução. Embora o objetivo final seja sempre promover um estilo de vida saudável e melhorar a qualidade de vida das pessoas, há muitas questões específicas que enfrentamos como anunciantes nesse setor. Regulamentações rígidas em muitos países significam que precisamos ter cuidado para não fazer alegações enganosas sobre a eficácia dos medicamentos e garantirmos que suas mensagens estejam em conformidade com as diretrizes locais. Um exemplo de campanha bem-sucedida foi a “Get Real About Psoriasis”, uma campanha da AbbVie que destacou a realidade da condição e a importância do tratamento.

    Outra agência de referência no mercado de saúde é a alemã Apotheke Adhoc, que utiliza a IA para produzir conteúdos audiovisuais que se destacam pela qualidade e inovação. Com essa tecnologia, a agência é capaz de criar animações e vídeos que explicam de forma clara e didática tratamentos médicos complexos, tornando a comunicação mais acessível e inclusiva.

    Além disso, a IA pode ser utilizada na produção de RTV para aprimorar a qualidade dos conteúdos audiovisuais, permitindo que os profissionais trabalhem de forma mais ágil e eficiente na edição, sonorização e efeitos visuais. Assim, é possível criar vídeos mais impactantes e envolventes, que gerem um maior engajamento do público. Então, precisamos ser mais assertivos e abrangentes, pensando nos pontos-cegos da produção.

    Outra vantagem da IA na produção de RTV para saúde é a possibilidade de monitorarmos os resultados das campanhas em tempo real. Com o uso de ferramentas de análise de dados, é possível avaliar o desempenho das campanhas e ajustar nas estratégias de comunicação que garantam um maior retorno sobre o investimento. Por fim, precisamos utilizar as ferramentas disponíveis para desenvolver nossas habilidades, permitindo que criemos campanhas de saúde cada vez mais eficazes e impactantes.

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    #RTV

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