Tem um uso de inteligência artificial em audiovisual que ninguém discute em painel porque não é fotogênico: pré-produção.
Não é o filme final. É o que vem antes. Testar o impossível, ver o tom, errar barato, chegar no set sabendo o que quer.
Quem já dirigiu sabe o custo de descobrir no set. A luz não era aquela. O ritmo não fecha. A locação parecia melhor na foto. Aquela sequência que estava clara na sua cabeça não está clara na cabeça de mais ninguém da equipe. Cada uma dessas descobertas custa hora de diária, e hora de diária custa o orçamento inteiro do projeto seguinte.
Storyboard sempre serviu para antecipar isso. Só que storyboard é caro, é lento, e depende de um ilustrador disponível. Por isso a maioria dos projetos brasileiros de porte médio nunca teve storyboard de verdade — teve uma conversa, um desenho no guardanapo e fé.
O que mudou é que agora dá para chegar na reunião de produção com a sequência inteira em imagem. Ruim, provisória, sem acabamento — e suficiente para todo mundo discutir a mesma coisa.
Isso não é uso glamouroso da tecnologia. É uso operacional. Reduz retrabalho, reduz discussão circular, reduz o risco de descobrir no dia. E é justamente o uso que aparece na planilha no fim do mês, que é onde a produção é julgada.
ADOBE; VARIETY. AI’s Role in Modern Production. Sundance Film Festival, 2026.