Nas entrevistas, quase ninguém tinha uma posição só. A mesma pessoa dizia, com dez minutos de diferença, que a ferramenta libertou o trabalho dela e que ela tem medo de virar dispensável.
Isso não é contradição. É o estado real do campo.
Pesquisa que busca coerência acaba forçando o entrevistado para um dos lados e produz um retrato falso — o entusiasta e o resistente, dois personagens que quase não existem em estado puro.
O que existe é ambivalência. Alívio pela parte chata que sumiu, e desconforto por não saber quanto tempo a parte boa dura.
Metodologicamente, isso obriga a escutar de um jeito específico: sem apressar a conclusão do entrevistado, sem preencher o silêncio, sem transformar hesitação em resposta. A hesitação é o dado.
E profissionalmente, obriga a outra coisa: parar de exigir que as pessoas tenham uma posição definida sobre isso. Quem lidera equipe hoje lida com gente que está genuinamente dividida, e tratar essa divisão como falta de adaptação é a forma mais rápida de perder os melhores.
A pesquisa se propôs a ser rigorosa e sensível. Rigorosa pelo método. Sensível por não simplificar o que as pessoas sentem enquanto o chão se move.
Dissertação (PPGCOM ESPM), capítulo 4 — análise das entrevistas com profissionais de criação.