Existe um acordo silencioso entre quem faz imagem e quem assiste. Ele nunca foi escrito, mas todo mundo conhece os termos.
Documentário promete que aquilo aconteceu. Publicidade promete que o produto existe e faz aquilo. Ficção promete que é ficção, e por isso pode tudo. Cada gênero carrega um regime de veracidade próprio, e a audiência sabe qual está em vigor sem precisar que alguém avise.
A imagem gerada não quebra esse acordo. Ela embaralha quem responde por ele.
Porque o acordo sempre dependeu de haver alguém que esteve lá. O documentarista esteve. O fotógrafo de publicidade esteve, com o produto na frente da câmera. A prova de que aquilo aconteceu era a presença de uma equipe num lugar.
Quando não há lugar nem equipe, a garantia deixa de ser factual e passa a ser declaratória. Alguém precisa dizer o que aquilo é.
É por isso que a discussão sobre rotular conteúdo gerado importa mais do que parece. Não é sobre censura nem sobre preconceito com a ferramenta. É sobre manter legível qual contrato está em vigor — e contrato ilegível corrói confiança em tudo, inclusive no material que foi captado de verdade.
O setor está resistindo, e parte dessa resistência é corporativa. Mas parte é sobre isso, e essa parte tem razão.
Recorte do plano de investigação sobre autoria, autenticidade e novos regimes de veracidade em contextos lusófonos.