Era quase primitivo. O cabelo me irritava. A correria me irritava. A cara dele de quem saiu de um festival indie e entrou por engano numa semifinal de Champions me irritava.
Cucurella parecia um jogador criado no modo aleatório. Pouca elegância. Muito cabelo. E a bateria de um pastor-alemão depois da campainha. Ele corria para frente, para trás, para o lado. Dava uma cotovelada. Parava outro jogador com o corpo todo, com aquela cara de mau. E eu pensava: não é possível que esse sujeito esteja jogando nesse nível.
Eu sei. Nem todo grande jogador precisa parecer o Kaká em campanha de perfume. Alguns parecem um problema operacional. Ele não faz você rever um drible vinte vezes. Faz o adversário verificar três vezes se ele foi embora. Nunca foi. Está atrás. Na frente. Fechando espaço. Disputando uma bola morta.
Cucurella joga como quem teme ser demitido no intervalo. Técnica sem intensidade vira decoração. Talento sem responsabilidade vira compilação bonita de jogador que desaparece quando o jogo começa a valer. Ele faz o contrário. Aceita parecer desajeitado. Aceita errar. Aceita ser odiado. E corre como se o aluguel vencesse no apito final.
O que mudou minha percepção aconteceu fora do campo
Cucurella é pai de Mateo, um menino autista. A família reorganizou a vida para encontrar escola e acompanhamento para o filho. Antes de pensar no clube, no salário ou nos títulos, ele pensa na estrutura disponível para o filho.
Enquanto muito jogador escolhe cidade olhando restaurante, praia e concessionária de carro importado, Cucurella procura escola e terapia. Menos Instagram. Mais vida real.
Até o cabelo carrega uma história familiar, embora não seja a versão açucarada da internet: ele usa o cabelo comprido para o filho reconhecê-lo nos jogos.
Talvez ele seja apenas inteiro
Durante muito tempo, enxerguei Cucurella como exagerado. Hoje percebo que talvez ele seja apenas inteiro. Inteiro na corrida. Na disputa. Na personalidade. Como pai.
O futebol está cheio de jogadores mais técnicos, mais rápidos, mais fortes, mais bonitos em câmera lenta. Mas poucos fazem cada centímetro do campo valer alguma coisa.
Eu ainda não acho o cabelo bonito. Parece um espanador depois de uma tomada. Mas não precisa ser bonito. Precisa ser impossível de confundir. Assim como o futebol dele.
Antes, eu queria que Cucurella desaparecesse. Hoje, não consigo parar de observá-lo. Porque ele lembra uma verdade: você não precisa ser o mais talentoso do campo. Precisa entregar algo impossível de ignorar.
Dentro de campo, incomoda o adversário. Fora dele, reorganiza a vida para que o filho se sinta seguro. Eu odiava Cucurella. Agora? Acho ele irresistível.