O audiovisual está ficando barato. A irrelevância, caríssima.

Nunca foi tão fácil produzir conteúdo. Uma ideia vira roteiro, a foto ganha movimento, a voz é clonada e o mesmo filme sai em 47 formatos antes do almoço. Parabéns: agora sua…

Nunca foi tão fácil produzir conteúdo. Uma ideia vira roteiro, a foto ganha movimento, a voz é clonada e o mesmo filme sai em 47 formatos antes do almoço. Parabéns: agora sua marca consegue ser irrelevante em 4K, vertical, horizontal, dublada e com legenda automática.

Quando produzir tudo se torna possível, produzir deixa de ser diferencial. A pergunta não é mais “o que conseguimos fazer?”. É “o que merece existir?”.

Uma marca pode publicar cinquenta vídeos por mês, abraçar todas as trends, contratar os creators certos e continuar não representando absolutamente nada na vida de ninguém. Pode estar em todas as plataformas e não ocupar território algum.

Stuart Hall já demonstrava que imagens não apenas mostram o mundo: elas produzem sentido. Portanto, enquadramento é posicionamento, montagem é hierarquia e casting é representação política. Mesmo quando a equipe diz que está “só fazendo um Reels rapidinho”.

Cultura não é cenário que se aluga

Colocar a marca num festival não faz dela parte da cultura, assim como entrar numa academia para tirar uma selfie não deixa ninguém musculoso. O público interpreta, transforma, legitima ou rejeita as narrativas que recebe. Alcance pode ser comprado; pertencimento, não.

E nenhuma empresa consegue construir externamente uma cultura que sua operação contradiz internamente todos os dias. O público talvez não conheça o organograma, mas o organograma vaza no filme.

O problema raramente é falta de criatividade

É falta de estrutura. Cada projeto começa do zero, cada fornecedor precisa reaprender a marca, os aprendizados evaporam e a estratégia chega à produção na forma sofisticadíssima de “precisamos de algo mais humano e disruptivo”.

O resultado é um filme correto, bonito e completamente intercambiável: troque o logotipo e ele serve para o concorrente. Criatividade sem operação vira acidente. Operação sem criatividade vira fábrica. E inteligência artificial sem direção apenas permite fabricar o genérico mais rápido, mais barato e em escala industrial.

A IA não elimina a direção. Torna a direção indispensável.

Quando cem versões podem ser geradas em minutos, o valor não está em produzir a centésima primeira, mas em reconhecer qual fortalece a identidade e matar as outras noventa e nove sem convocar uma reunião de duas horas.

O futuro não pertence a quem produzir mais. Pertence a quem construir memória, sustentar uma visão de mundo e tiver coragem de não transformar cada possibilidade técnica em mais um conteúdo esquecível.

Num mundo capaz de gerar tudo, direção é decidir o que não será produzido.